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POLíTICA

Gasto público em segurança é recorde, mas gestão tem déficit

20º Anuário Brasileiro da Segurança Pública mostra mudança no perfil da criminalidade e déficit na ação das autoridades

Há 78 dias • por Da Redação
Gasto público em segurança é recorde, mas gestão tem déficit
Foto: SSP/SP
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5:12

Ao longo de duas décadas, Anuário Brasileiro de Segurança Pública tornou-se a principal referência nacional para acompanhar a evolução do crime e das políticas de segurança. A 20ª edição da pesquisa, publicada nesta quinta, 23, mostra um país em transformação: os homicídios atingiram o menor nível da série histórica iniciada em 2012, mas o crime organizado diversificou suas atividades, os estelionatos explodiram e a violência contra as mulheres continua crescendo.

O diagnóstico chega em um momento em que a segurança pública desponta como tema central na eleição para presidente. Questões como coordenação federativa, eficiência do gasto público e capacidade do Estado de enfrentar organizações criminosas cada vez mais sofisticadas são postas em relevo pelo documento.

Homicídios e celulares

O dado mais positivo do levantamento é a continuidade da redução das mortes violentas. Em 2025, o Brasil registrou 40.775 vítimas, queda de 8,2% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez desde o início da série histórica, a taxa nacional ficou abaixo de 20 mortes violentas por 100 mil habitantes, alcançando 19,1. O resultado confirma uma tendência consistente de redução da violência letal, mas os números absolutos ainda são assustadores.

O país, no entanto, não se tornou mais seguro em outras dimensões. O Anuário sugere que o Brasil vive uma mudança no perfil da criminalidade. Os roubos tradicionais continuam em queda — veículos, residências, estabelecimentos comerciais e transeuntes registraram reduções expressivas — enquanto cresce rapidamente o estelionato, que já se consolidou como o principal crime patrimonial do país. Foram 2,2 milhões de ocorrências em 2025, equivalente a 258 registros por hora, aumento de 429% em relação a 2018. O roubo de celulares também assume um novo significado: mais do que o valor do aparelho, interessa aos criminosos o acesso às contas bancárias, documentos e identidades digitais das vítimas, alimentando uma cadeia de fraudes eletrônicas.

Violência contra a mulher

Outra mudança importante aparece na violência de gênero. Embora os homicídios dolosos de mulheres tenham diminuído, os feminicídios voltaram a bater recorde, alcançando 1.571 vítimas em 2025. Pela primeira vez, quase metade das mortes violentas de mulheres aparece como sendo motivada por razões de gênero. O levantamento mostra crescimento de ameaças, perseguições e outras formas de violência doméstica.

Muito dinheiro, pouca gestão

O estudo lança luz sobre a atuação do próprio Estado. O Brasil nunca investiu tanto em segurança pública: União, estados e municípios desembolsaram R$ 163,1 bilhões em 2025. O principal problema deixou de ser a escassez de recursos e passou a ser a qualidade da governança. Os estados respondem por cerca de 80% dos gastos nacionais, enquanto a União continua exercendo papel limitado na coordenação das políticas públicas. Boa parte do orçamento permanece concentrada na manutenção das estruturas existentes, reduzindo o espaço para investimentos em inteligência, integração tecnológica e inovação. A PEC da Segurança Pública, parada no Senado, é apresentada como uma tentativa de fortalecer justamente essa capacidade coordenadora do governo federal.

A expansão da segurança privada completa esse quadro de transformações. Após anos de retração, o setor voltou a crescer, impulsionado pelo novo Estatuto da Segurança Privada e pela demanda crescente por proteção patrimonial e gestão de riscos. O mercado tornou-se mais profissionalizado, com aumento da escolaridade dos vigilantes, maior participação feminina e valorização salarial, indicando que empresas e cidadãos recorrem cada vez mais a mecanismos complementares à atuação das forças policiais.

Eleições

No conjunto, o Anuário transmite uma mensagem que deve influenciar o debate eleitoral dos próximos meses. O Brasil parece ter conseguido reduzir parte da violência letal, mas enfrenta desafios mais complexos do que no passado: crime organizado voltado a fraudes digitais, violência persistente contra mulheres, expansão da letalidade policial e necessidade de reorganizar a arquitetura institucional da segurança pública. O tema deve ocupar espaço na campanha presidencial porque preocupa os eleitores e também porque expõe um dilema da administração pública: como transformar um volume recorde de recursos em políticas mais eficazes.

Estados com maior taxa de mortes violentas (2025)

  1. Amapá — 42,5 mortes por 100 mil habitantes
  2. Bahia — 36,8
  3. Ceará — 34,7
  4. Maranhão — 29,7
  5. Pará — 28,4

Estados com menor taxa de mortes violentas (2025)

  1. Santa Catarina — 7,6 mortes por 100 mil habitantes
  2. São Paulo — 7,8
  3. Distrito Federal — 9,6
  4. Rio Grande do Sul — 11,3
  5. Minas Gerais — 12,9

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