Ao longo de duas décadas, Anuário Brasileiro de Segurança Pública tornou-se a principal referência nacional para acompanhar a evolução do crime e das políticas de segurança. A 20ª edição da pesquisa, publicada nesta quinta, 23, mostra um país em transformação: os homicídios atingiram o menor nível da série histórica iniciada em 2012, mas o crime organizado diversificou suas atividades, os estelionatos explodiram e a violência contra as mulheres continua crescendo.
O diagnóstico chega em um momento em que a segurança pública desponta como tema central na eleição para presidente. Questões como coordenação federativa, eficiência do gasto público e capacidade do Estado de enfrentar organizações criminosas cada vez mais sofisticadas são postas em relevo pelo documento.
Homicídios e celulares
O dado mais positivo do levantamento é a continuidade da redução das mortes violentas. Em 2025, o Brasil registrou 40.775 vítimas, queda de 8,2% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez desde o início da série histórica, a taxa nacional ficou abaixo de 20 mortes violentas por 100 mil habitantes, alcançando 19,1. O resultado confirma uma tendência consistente de redução da violência letal, mas os números absolutos ainda são assustadores.
O país, no entanto, não se tornou mais seguro em outras dimensões. O Anuário sugere que o Brasil vive uma mudança no perfil da criminalidade. Os roubos tradicionais continuam em queda — veículos, residências, estabelecimentos comerciais e transeuntes registraram reduções expressivas — enquanto cresce rapidamente o estelionato, que já se consolidou como o principal crime patrimonial do país. Foram 2,2 milhões de ocorrências em 2025, equivalente a 258 registros por hora, aumento de 429% em relação a 2018. O roubo de celulares também assume um novo significado: mais do que o valor do aparelho, interessa aos criminosos o acesso às contas bancárias, documentos e identidades digitais das vítimas, alimentando uma cadeia de fraudes eletrônicas.
Violência contra a mulher
Outra mudança importante aparece na violência de gênero. Embora os homicídios dolosos de mulheres tenham diminuído, os feminicídios voltaram a bater recorde, alcançando 1.571 vítimas em 2025. Pela primeira vez, quase metade das mortes violentas de mulheres aparece como sendo motivada por razões de gênero. O levantamento mostra crescimento de ameaças, perseguições e outras formas de violência doméstica.
Muito dinheiro, pouca gestão
O estudo lança luz sobre a atuação do próprio Estado. O Brasil nunca investiu tanto em segurança pública: União, estados e municípios desembolsaram R$ 163,1 bilhões em 2025. O principal problema deixou de ser a escassez de recursos e passou a ser a qualidade da governança. Os estados respondem por cerca de 80% dos gastos nacionais, enquanto a União continua exercendo papel limitado na coordenação das políticas públicas. Boa parte do orçamento permanece concentrada na manutenção das estruturas existentes, reduzindo o espaço para investimentos em inteligência, integração tecnológica e inovação. A PEC da Segurança Pública, parada no Senado, é apresentada como uma tentativa de fortalecer justamente essa capacidade coordenadora do governo federal.
A expansão da segurança privada completa esse quadro de transformações. Após anos de retração, o setor voltou a crescer, impulsionado pelo novo Estatuto da Segurança Privada e pela demanda crescente por proteção patrimonial e gestão de riscos. O mercado tornou-se mais profissionalizado, com aumento da escolaridade dos vigilantes, maior participação feminina e valorização salarial, indicando que empresas e cidadãos recorrem cada vez mais a mecanismos complementares à atuação das forças policiais.
Eleições
No conjunto, o Anuário transmite uma mensagem que deve influenciar o debate eleitoral dos próximos meses. O Brasil parece ter conseguido reduzir parte da violência letal, mas enfrenta desafios mais complexos do que no passado: crime organizado voltado a fraudes digitais, violência persistente contra mulheres, expansão da letalidade policial e necessidade de reorganizar a arquitetura institucional da segurança pública. O tema deve ocupar espaço na campanha presidencial porque preocupa os eleitores e também porque expõe um dilema da administração pública: como transformar um volume recorde de recursos em políticas mais eficazes.
Estados com maior taxa de mortes violentas (2025)
- Amapá — 42,5 mortes por 100 mil habitantes
- Bahia — 36,8
- Ceará — 34,7
- Maranhão — 29,7
- Pará — 28,4
Estados com menor taxa de mortes violentas (2025)
- Santa Catarina — 7,6 mortes por 100 mil habitantes
- São Paulo — 7,8
- Distrito Federal — 9,6
- Rio Grande do Sul — 11,3
- Minas Gerais — 12,9




