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POLíTICA

Endividamento: não mata nem engorda

Segundo as pesquisas, contas a pagar não estão no topo das preocupações dos eleitores. O que não é bom nem ruim para o governo

Há 150 dias • por Leonardo Barreto
Endividamento: não mata nem engorda
Foto: Freepick
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5:23

Enquanto o governo recorre ao saldo do FGTS para que trabalhadores paguem suas dívidas no programa Desenrola 2, a pesquisa Nexus mostra que estar endividado não altera necessariamente a intenção de voto. Segundo a pesquisa, as divisões nesse grupo espelham a média nacional.

Outro dado mostra que o endividamento e a inflação não são identificados como o principal problema do Brasil. Entre os eleitores de Lula, inflação e poder de compra são apenas o oitavo item na fila de preocupações. Para os simpatizantes de Flávio Bolsonaro, o quinto.

Problema de percepção?

A economia do país é vista como ruim ou péssima por 51% dos eleitores. Mas apenas 22% afirmam que sua situação financeira pessoal é negativa. Além disso, 46% acham que vão melhorar nos próximos seis meses e só 15% acreditam que vão passar por mais dificuldades.

Essas notícias devem gerar alívio no Planalto, pois reforçam a narrativa de que a economia vai bem e que o problema de popularidade de Lula é de comunicação.

Esses dados de percepção conversam, no entanto, com outros que indicam aperto das famílias. Nesta segunda, 27, o Banco Central divulgou que o endividamento das famílias subiu para 49,9% em fevereiro, o maior nível já registrado, comprometendo 29,7% da renda das pessoas.

Sem sobras

Uma análise da consultoria Tendências, também publicada nesta segunda, mostrou que, desde 2011, nunca sobrou tão pouco dinheiro para as famílias depois de pagarem suas dívidas, impostos e gastos essenciais: 21% (o menor nível desde 2011).

A questão é: como esses dados e eventos – decisão do governo de enfrentar o endividamento, percepção das pessoas que esse não é o principal problema do país e números mostrando o pior aperto do orçamento familiar em 15 anos – conversam?

Hipóteses

É possível pensar em seis hipóteses, todas baseadas em escolas de estudo de comportamento eleitoral:

1. “Voto Retrospectivo de Curto Prazo” vs. “Voto Prospectivo”: muitos eleitores não decidem o voto apenas com base no “hoje”, mas na expectativa do “amanhã”. Mesmo com o orçamento apertado, 46% dos eleitores acreditam que sua situação vai melhorar nos próximos seis meses e esse otimismo funciona como um amortecedor político;

2. “Avaliação Sociotrópica” vs. “Egocêntrica”: o eleitor sociotrópico vota baseado no estado geral da economia e o egocêntrico se baseia no que acontece na própria vida. Esse debate conversa com o dado de que 51% acham a economia do país ruim/péssima, mas apenas 22% classificam sua situação financeira pessoal da mesma forma. Enquanto o eleitor sentir que, individualmente, ele “está se virando” melhor que a média nacional, ele tende a poupar o governante;

3. “Partidarismo como Filtro Perceptivo” (Motivated Reasoning): a polarização política cria uma “lente” e a identidade partidária vem antes da percepção econômica. O eleitor interpreta a economia para confirmar sua escolha política, e não o contrário.

4. “Ancoragem e Normalização do Endividamento”: o endividamento pode ter deixado de ser visto como uma “crise de governo” para ser visto como uma “condição estrutural de vida”. Quando um fenômeno (como o endividamento) se torna perene e atinge 60% da população, ele perde o poder de indignação política imediata;

5. Precedência de “Bens Pós-Materiais” ou Valores: em sociedades muito polarizadas, pautas morais ou de ordem pública podem sobrepor-se à economia. Quando as necessidades básicas estão minimamente atendidas (ou o eleitor se habituou ao aperto), a decisão de voto migra para temas de identidade ou segurança. Na pesquisa, CORRUPÇÃO (24%) e SEGURANÇA PÚBLICA (24%) aparecem com o dobro de relevância que a inflação (11%). Se o eleitor não identifica o custo de vida como seu problema número 1, ele não votará “com o bolso”, mas sim com seus valores ou medos sociais.

6. “Miopia do Eleitor” e Diferimento de Culpa: o eleitor possui dificuldade em atribuir causas complexas (juros altos, câmbio, inflação global) ao governante imediato. Se o desemprego está baixo (10% de preocupação), o eleitor sente que tem o meio de subsistência, mesmo que o dinheiro não sobre.

    Entre perdição e salvação

    As hipóteses não são excludentes. Mas, de forma opinativa, apostaria na força das hipóteses 3 (filtro ideológico), 4 (normalização) e 6 (miopia, especialmente por não associar a questão fiscal aos juros altos e ao endividamento).

    Nessa situação, cria-se o impasse. Nem o endividamento será a perdição do governo, nem o Desenrola 2 será a sua salvação, porque os elementos de percepção determinantes, hoje, são ideológicos.

    P.S.: Talvez isso valha para endividamento, mas não para inflação. A ver.

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