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POLíTICA

É cansativo quando tudo é política

Da arte à ciência, passando pelas compras de supermercado, nada mais está imune à disputa ideológica

Há 138 dias • por Carlos Graieb
É cansativo quando tudo é política
Fotos: Reprodução Instagram
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4:30

A confusa suspensão da venda de vários produtos da marca Ypê pela Anvisa – confusa, porque teve idas e vindas e não trouxe um posicionamento claro sobre as suas razões sanitárias – resultou numa série de vídeos indignados. Apoiadores de Jair Bolsonaro interpretaram a medida como perseguição política à fábrica, cujos proprietários apoiaram o ex-presidente nas eleições de 2022. Em uma das gravações, um homem bebe detergente e depois faz um gesto obsceno.

Também chamou atenção no fim de semana a propaganda do deputado federal Nikolas Ferreira para uma nova marca de chinelos chamada Pé Direito. O produto é uma resposta ao filme das Havaianas, que, no final do ano passado, desejou que os brasileiros entrassem em 2026 “com os dois pés”, em vez de apenas com o “pé direito”. A peça publicitária foi vista – com razão – como crítica aos conservadores e provocou uma campanha de boicote.

Política em toda parte

Os episódios são sintomas de uma patologia: a política tornou-se a lente através da qual tudo é interpretado no Brasil. Da arte à ciência, passando pelas compras de supermercado, nada fica imune à disputa ideológica.

Há uma intuição saudável – tanto do ponto de vista individual quanto coletivo – de que isso não deveria acontecer. Nem tudo é política. Há de haver espaços regulados por lógicas diferentes, outras formas de julgamento e experiência.

Excessos

O filósofo americano Robert Talisse faz uma análise interessante dos males causados pela hipertrofia da política no livro Overdoing Democracy. Na sua fórmula provocativa, “exagerar na democracia” – ou politizar em excesso a vida social – acaba corroendo o próprio regime democrático.

Segundo o autor, as democracias contemporâneas passaram por processos simultâneos de agrupamento e polarização. Pessoas com a mesma inclinação política assistem aos mesmos programas, consomem os mesmos produtos, frequentam os mesmos ambientes. Conservadores e progressistas passam a habitar ecossistemas sociais distintos. A “polarização de crenças” — descreve o efeito psicológico dessa aglutinação: grupos compostos por pessoas semelhantes tendem a radicalizar seu modo de ver as coisas.

Os fenômenos se reforçam mutuamente. Quanto mais homogêneos os ambientes sociais, mais intensas se tornam as convicções políticas; quanto mais intensas as convicções, mais as pessoas reorganizam sua vida cotidiana em torno delas. A absolutização da política torna inviável a própria política – ao menos na sua forma democrática.  Afinal, democracias dependem de que se aceite a pluralidade. Mas quando tudo, do detergente ao chinelo, vira manifestação ideológica, essa disposição desaparece.

Outras lógicas

Talisse não nega que possa haver causas políticas ocultas por trás de acontecimentos que parecem inocentes ou “normais”. Mas ele insiste que a política não deve ter precedência automática sobre todas os outros critérios de avaliação dos fatos.

A Anvisa explicou mal a intervenção na indústria de produtos de limpeza. O primeiro passo deveria ser cobrar uma explicação melhor, em vez de saltar diretamente para a conclusão de que existe uma conspiração política em curso.

No caso das Havaianas, os marqueteiros decidiram jogar fora décadas de construção bem sucedida de marca – que fez das sandálias um símbolos do jeito de ser dos brasileiros – para lacrar na política. Talvez em outras épocas a provocação passasse em branco. Hoje, não.

Um charuto é apenas um charuto

Freud nunca disse que “às vezes, um charuto é apenas um charuto”. Mas a frase, mesmo apócrifa, é boa. Significa que nem tudo requer uma explicação psicanalítica complicada, que remonte às pulsões sexuais da infância. Da mesma forma, é cansativo quando tudo é política. Seria bom viver num mundo em que, às vezes, um chinelo fosse apenas um chinelo. E em que beber detergente fizesse mal para estômagos de esquerda e direita.

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