Geraldo Alckmin ficou sabendo que será mais uma vez candidato a vice-presidente da República no dia 31 de março, durante uma reunião ministerial transmitida ao vivo pela internet. Quem assiste às imagens percebe que ele foi pego de surpresa pelo anúncio, feito pelo presidente Lula de maneira casual. Havia um bom suspense sobre essa decisão.
Alckmin teve papel importante nas eleições de 2022. Sua presença na chapa de Lula transmitiu a ideia de que o PT estava aberto a dialogar com diferentes forças políticas e inclusive a unir-se com velhos adversários, como o próprio Alckmin. Essa sinalização foi relevante para atrair eleitores indecisos, numa disputa vencida por margem estreita contra o bolsonarismo.
Como vice, o antigo tucano exercitou a diplomacia política que vem aperfeiçoando em mais de cinco décadas de trajetória. Ele foi discreto e eficiente. Participou de articulações no Congresso e, à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), manteve diálogo com o setor privado. De maneira crucial, participou das negociações para contornar o tarifaço imposto por Donald Trump ao Brasil, em 2025. A resposta do governo a esse desafio rendeu os maiores índices de aprovação alcançados por Lula no atual mandato.
Mesmo assim, não era certo o convite para permanecer na chapa presidencial. O PT fazia cálculos sobre a conveniência de entregar o posto a um outro partido, que não o PSB de
Alckmin. Seria um meio de ampliar seu arco de alianças numa eleição que, de novo, promete ser duríssima.
Também em público, Lula sugeriu algumas vezes que o vice poderia concorrer ao Senado ou tentar retornar ao governo de São Paulo (que ele já ocupou quatro vezes). Alckmin fez saber que as propostas não lhe interessavam; se não fosse participar da corrida ao Planalto, preferia capinar o mato em seu sítio no interior paulista.
No fim, prevaleceu a ideia de repetir a parceria de 2022. Não é claro se ela vai surtir o mesmo efeito desta vez. Mas se trata de um desfecho justo para Alckmin, que falou à revista V sobre o governo Lula, o cenário eleitoral e sua maneira peculiar de enxergar a política.
Leia a seguir um trecho da entrevista exclusiva:
Por que o eleitor deveria dar um quarto mandato a Lula em 2026?
Lula não trabalha para um ou outro segmento da sociedade. Ele trabalha para todos os brasileiros. Promove um governo plural, focado em resultados, que entrega políticas que fazem a diferença na vida da população e que funciona na base do diálogo respeitoso com os segmentos da sociedade e com nossos parceiros internacionais. Com Lula, nossos jovens seguirão aprendendo, empregos continuarão a ser gerados e negócios prosseguirão se multiplicando. No governo Lula, o respeito às mulheres é prioridade política, pois seguiremos combatendo a misoginia, o feminicídio e qualquer tipo de violência. Nossas empresas, apoiadas com mais crédito, capacitação e um ambiente de negócios amigável, começarão também a colher os benefícios da reforma tributária aprovada neste mandato, além da continuidade da política industrial como prioridade como instrumento de melhoria para os trabalhadores brasileiros. Abrimos mais de 550 mercados e celebramos acordos comerciais, por meio do Mercosul, com União Europeia, Singapura e EFTA. Seguiremos exportando mais, atraindo investimentos que se traduzem na elevação de renda e abrindo ainda mais mercados, trazendo e levando produtos e incorporando inovações.
Por que o eleitor não deve dar um mandato a Flávio Bolsonaro?
Porque Lula é quem tem a experiência, os valores e os compromissos que melhor servem ao Brasil. É ele quem de fato defende a soberania nacional, os interesses da nação.do numa sensação de bem estar entre a população, como mostram diversas pesquisas. O que, a seu ver, explica esse fenômeno?
Normalmente, os indicadores macroeconômicos melhoram mais rápido do que a percepção no dia a dia das pessoas. E muitos outros elementos interferem nessa percepção. Vivemos no mundo da chamada pós-verdade, das fake news, da disseminação de conteúdos mentirosos, e isso certamente afeta o julgamento que as pessoas fazem sobre todas as coisas, inclusive sobre as ações do governo. Além do mais, temos no Brasil um elemento que é bem ruim e que causa impactos negativos reais em todo o resto: a alta taxa de juros. É a segunda maior do planeta. Ela desestimula investimentos, retrai o consumo e prejudica as contas públicas, reduzindo a capacidade de atuação do Estado. O governo está fazendo sua parte e tem muito a mostrar.
O que marca este governo Lula como um todo?
Em primeiro lugar, este terceiro mandato do presidente Lula é marcado pela defesa da democracia e pelo fortalecimento das instituições republicanas, que está permitindo passar o Brasil a limpo, desvendando e punindo organizações criminosas e escândalos de corrupção que administrações anteriores foram incapazes sequer de apurar; pelo combate ao negacionismo criminoso que vitimou milhares de brasileiros, sobretudo durante a pandemia de Covid-19; pela retomada de políticas para a educação; os programas de recomposição da renda das famílias, combate permanente à desigualdade; pela volta do processo civilizatório, do diálogo e da diplomacia nas relações políticas; pela reinserção do Brasil como ator relevante e respeitado no mundo inteiro; e pela reconstrução do Estado brasileiro. Não é pouca coisa.




