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POLíTICA

Análise: Lula quer voltar a “enganar o sistema”

Em discurso na Europa, Lula dá sinais negativos sobre responsabilidade fiscal caso seja eleito para um novo mandato

Há 156 dias • por Leonardo Barreto
Análise: Lula quer voltar a “enganar o sistema”
Lula: inconformado com a responsabilidade fiscal. Foto: Ricardo Stuckert/PR
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Lula fez um dos seus discursos mais ricos em termos analíticos no último sábado, 18. Reunido com outros líderes de esquerda no evento Global Progressive Mobilisation, realizado em Barcelona, ele fez o que a imprensa leu como uma autocrítica sobre como a esquerda, ao assumir o poder por décadas, tornou-se o “rosto das instituições” (o establishment), permitindo que a extrema-direita sequestrasse o sentimento de indignação popular e o rótulo de “antissistema”.

O dilema trazido por Lula tem fundo histórico e teórico parrudo, sendo alvo de discussões sobre os limites dos movimentos revolucionários de esquerda no século 20: porque movimentos revolucionários tendem a se tornar aquilo que combatiam.

Autocrítica profunda

“Nós precisamos fazer uma autocrítica profunda”, disse Lula. “Durante muito tempo, nós, os progressistas, fomos a voz dos indignados, a voz daqueles que queriam romper com as injustiças do sistema. Mas em algum momento, nos tornamos o rosto das instituições e deixamos de falar com a alma do trabalhador. A extrema-direita, com uma esperteza perversa, ocupou esse lugar. Hoje, eles se vendem como ‘antissistema’ enquanto defendem os interesses dos mais ricos. É uma hipocrisia monumental. Eles atacam a Suprema Corte, atacam o Parlamento e atacam a imprensa para parecerem rebeldes, mas, na hora de votar, votam contra o direito do trabalhador, votam contra o salário-mínimo e votam a favor de isenções para bilionários. Eles não são antissistema. Eles são a pior parte do sistema, aquela que quer destruir o Estado para que a lei da selva prevaleça. O nosso desafio é mostrar ao povo que o verdadeiro movimento contra esse sistema de desigualdade somos nós, e que não existe rebeldia verdadeira sem justiça social e sem democracia.”

A questão dogmática, no entanto, nunca foi e ainda não é uma preocupação efetiva para Lula, que sempre foi considerado um pragmático. No decorrer do discurso, sua frustração migra para dois focos: limites fiscais e falta de reconhecimento por parte da população.

Orçamento sem limites

Lula defende que a esquerda perde sua identidade ao se submeter à responsabilidade fiscal (“neoliberalismo”), o que o leva a defender desrespeitar os limites orçamentários. Sem conseguir satisfazer todas as necessidades materiais das pessoas, abrem-se flancos para que a direita, segundo ele por meio de fake news, consiga cooptar os mais incautos.

A questão dos limites orçamentários como fator impeditivo para a esquerda realizar seus objetivos formaliza, no discurso, uma decisão que já se viu na prática durante o terceiro mandato do presidente. Analisando a trajetória da dívida pública nesse período, de acordo com projeções do Tesouro Nacional, valor crescerá 14,3 pontos percentuais até o final do ano, atingindo 86% do PIB.

Língua dos comícios

“O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência”, prosseguiu Lula. Nós não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo. Muitas vezes, a esquerda chega ao governo e começa a falar a língua do mercado, a língua da burocracia, e esquece a língua que falou nos comícios. É nesse momento que a gente perde a nossa identidade. Se o povo não consegue ver a diferença entre o que nós fazemos e o que o sistema sempre fez, por que ele haveria de nos apoiar? Nós precisamos ter a coragem de ser quem somos, implementando as políticas sociais pelas quais fomos eleitos, sem nos deixarmos aprisionar pelas regras que só servem para manter a desigualdade.”

Abandonar os limites, no entanto, envolve também reconhecer que a postura de “frente ampla” de centro é um estelionato necessário. O trecho sobre quebrar regras ser uma parte do jogo sugere que o descumprimento de promessas de moderação é uma questão de sobrevivência política e as dificuldades de conexão com o eleitorado não são falhas de governo, mas resultado da influência de fake news. Nesse sentido, sua solução é a “regulação democrática das plataformas” e a flexibilização da liberdade de expressão, que “não pode ser o biombo para a destruição da democracia.”

Sincericídio?

O discurso de Lula, portanto, não faz uma autocrítica strictu sensu. Na verdade, ele é uma reclamação dos limites orçamentários e institucionais, da necessidade de ter que fazer um jogo democrático com o centro e revela que ele não reconhece a importância que a disciplina fiscal teve nos seus dois primeiros governos. Considerando o choque fiscal que os analistas reservam para 2027, pode-se imaginar que Lula não pensa realmente no tema e que sua atenção está em manobrar o sistema que, no final das contas, ele comanda direta ou indiretamente há anos. Trata-se de um momento de sinceridade com alto poder explicativo de escolhas feitas no terceiro mandato e de construção de expectativas sobre um eventual e possível quarto mandato.

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