Março virou liturgia. Todo ano o mesmo ritual: flores, bom-bons, discursos, hashtags. E a mulher real, aquela que acorda antes do sol para abrir o ateliê, o tabuleiro, o salão improvisado na garagem, segue sendo subestimada como sujeito político. É um equívoco caro, no sentido literal.
O Brasil tem mais de 13 milhões de MEIs ativos, dos quais 46% são mulheres, cerca de 6 milhões de microempreendedoras individuais. Nas franjas das grandes cidades do Sudeste, onde o Estado chega tarde e o ônibus chega lotado, essas mulheres construíram uma economia feita de WhatsApp, fiado e persistência.
Elas dependem do Estado não por convicção ideológica, mas por posição estrutural. É essa mulher que usa o posto de saúde para a família, a escola pública para os filhos e depende da segurança pública para sobreviver aos homens. Por isso a pergunta que orienta seu voto não é “qual é o projeto de nação?”. É “o que mudou aqui na nossa vida?”
‘Affordability’
E o que mudou para a maioria, dentro de uma margem restrita de 3% do eleitorado que definirá 2026, foi mais do que um ciclo eleitoral. Votaram em Bolsonaro em 2018 com uma expectativa de mudança. A gestão da pandemia, com o descaso com as vacinas e a picardia diante do luto, quebrou esse vínculo. Em 2022, migraram para Lula. Hoje, parte significativa dessas mulheres desaprova o governo: o custo de vida não cedeu o suficiente, a promessa de melhora concreta ainda não chegou ao caixa.
É daí que vem uma chave eleitoral de 2026. Não é macroeconomia. É uma palavra inglesa muito usada na política norte-americana: affordability, o quanto se consegue efetivamente pagar com o que se ganha. O IPCA pode recuar nos relatórios. O aluguel e o açúcar para o bolo que será vendido pela doceira contam uma história diferente. A inflação que aparece nas estatísticas e a que aparece no carrinho de compras são, com frequência, dois países distintos.
Resultado
Na pesquisa Meio/Ideia de março vimos que 51,3% das mulheres consideram que o governo Lula deve continuar, contra 45,4% que preferem encerrar o ciclo petista. Entre homens, o sinal se inverte: 56,3% querem mudança. O desafio para Lula numa eleição tão apertada quanto deve ser a deste ano, é convencer a maioria feminina do contingente de 3% do eleitorado que não se identifica nem com ele, nem com Bolsonaro. Apartidárias, decepcionadas com os dois ciclos, avaliando pelo critério mais simples que existe: resultado.
Essa mulher não vota por tabela ideológica. Vota por desempenho percebido e tem uma capacidade de avaliação prática que os modelos eleitorais clássicos raramente capturam. Seus negócios são também redes de conversa e validação. O que circula ali ganha capilaridade que nenhuma campanha consegue replicar.
A eleição de 2026 será decidida no momento em que essa mulher, depois de fechar o mês, verificar se o país em que ela trabalha tanto está, de fato, melhorando. Quem tiver resposta honesta para essa pergunta, tem a eleição.
Cila Schulman é CEO do Ideia Instituto de Pesquisa.




