Há algo especialmente significativo quando o presidente do Banco Central escolhido por Luiz Inácio Lula da Silva afirma que o modelo de crescimento puxado pela expansão da demanda bateu no limite.
Foi esse o diagnóstico apresentado por Gabriel Galípolo nesta semana, durante conferência promovida pelo Santander, em São Paulo. Segundo ele, a economia brasileira não pode continuar dependendo da expansão da renda, do crédito e do consumo para sustentar seu crescimento. Com a demanda pressionando a capacidade de oferta, insistir nessa receita tende a produzir inflação — e, como consequência, juros elevados.
A discussão, defendeu Galípolo, precisa migrar para outro terreno: o da produtividade.
O diagnóstico ajuda a explicar por que, mesmo depois de iniciar a redução da Selic, o Banco Central continua apontando a necessidade de desacelerar a economia. E aponta para uma discussão que deveria estar no centro da campanha presidencial: depois de anos em que o crescimento foi impulsionado pela demanda, de onde virá a próxima etapa de expansão?
O limite da demanda
Galípolo parte de uma constatação simples. A economia brasileira está próxima do pleno emprego e cresce com a demanda avançando mais rapidamente do que a oferta. Nessas condições, continuar estimulando o consumo tende a aumentar a pressão inflacionária.
É por isso que o início da redução da Selic não deve ser confundido com uma mudança completa da política monetária. O Copom cortou recentemente a taxa básica em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, mas Galípolo insiste que os juros precisam continuar em nível contracionista.
O BC, explicou seu presidente, não está conduzindo a política monetária para produzir crescimento por meio de “mais consumo e mais demanda”. Seu papel agora é reequilibrar oferta e demanda.
A saída pela produtividade
Se há pouco espaço para continuar crescendo pela expansão do consumo, é necessário aumentar a quantidade de bens e serviços que a economia produz. Em outras palavras, elevar sua produtividade.
Galípolo defendeu que o debate passe a incluir as condições necessárias para tornar os juros de longo prazo — aqueles que financiam projetos capazes de transformar a capacidade produtiva — mais atraentes e permitir os investimentos necessários.
Ele não apresentou uma lista de reformas necessárias para obter esse resultado, nem transformou sua análise em recomendação eleitoral. Mas colocou a produtividade no centro da equação.
Uma discussão que a V fez em março
Em março, a V argumentou que o terceiro governo Lula procurava colher dividendos econômicos e eleitorais de uma velha receita: expansão dos gastos e das transferências, estímulo ao consumo e crescimento da renda.
A ênfase era mais fiscal que a de Galípolo. A V apontava para o crescimento da dívida pública como um dos fatores que impediam uma redução mais forte dos juros e destacava o efeito da longa permanência da Selic em níveis elevados sobre o endividamento das famílias.
Galípolo apresenta agora a questão por outro ângulo: o desequilíbrio entre demanda e oferta. São diagnósticos paralelos: o crescimento baseado em gasto público e estimulo à demanda encontra limites. E o presidente do BC acrescenta uma peça importante. Não basta discutir como consumir mais. É preciso discutir como produzir mais.
A campanha política começou. Os eleitores devem cobrar de Lula e do PT responsabilidade por um modelo político que ajudou a produzir recordes de endividamento entre famílias e empresas.
Aproveitando a deixa de Galípolo, devem cobrar de todos os candidatos um novo modelo, capaz de elevar investimento, produtividade e o potencial de crescimento da economia brasileira.




