A adoção de medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos, em resposta às barreiras comerciais impostas pelo governo americano, tende a aprofundar os problemas da economia brasileira, em vez de resolvê-los. A avaliação foi feita por Ronaldo Caiado, candidato do PSD à Presidência da República, nesta segunda-feira, 17, durante o almoço Brasil de Ideias – Especial Eleições, promovido pelo Grupo VOTO em São Paulo. O encontro também contou com a participação do presidente nacional do PSD e candidato a vice-presidente, Gilberto Kassab. A mediação foi da CEO do Grupo VOTO Karim Miskulin.
Ao tratar da deterioração das relações entre Brasília e Washington, Caiado afirmou que o governo Lula transformou a política externa em instrumento ideológico e criticou a possibilidade de o Brasil responder às medidas americanas recorrendo à Lei da Reciprocidade Econômica. “A reciprocidade vai piorar a economia brasileira. Não adianta fechar portas”, afirmou. Para ele, o governo tenta se beneficiar politicamente do conflito ao transformar a soberania nacional em bandeira eleitoral. “Você vai criar mais atrito porque pretende se beneficiar da situação e usar o discurso da soberania. Isso é ridículo.”
Caiado defendeu uma diplomacia voltada à abertura de mercados e à geração de oportunidades comerciais. Lembrou que a China responde por cerca de 40% das exportações brasileiras e disse que, em seu governo, o Itamaraty trabalharia com metas e seria cobrado pelos avanços obtidos em cada país. O candidato anunciou ainda que pretende nomear Roberto de Oliveira para o Ministério das Relações Exteriores.
Kassab aposta na competitividade de Caiado
Gilberto Kassab afirmou que o apoio do PSD a Caiado decorre, entre outros fatores, da preocupação com os rumos do país e da experiência administrativa do candidato. “Candidatura é um ato de coragem. Grande parte aqui está insegura em relação ao futuro do Brasil. Essa é a razão da gente estar apoiando o Caiado”, disse.
O presidente do PSD também sustentou que Caiado reúne condições eleitorais para romper a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. Segundo Kassab, a composição partidária garantiu à candidatura cerca de 2:20 minutos de propaganda eleitoral na televisão, vantagem que, em sua avaliação, ajuda a diferenciá-la de outros nomes da disputa. “Por que estão batendo no Caiado? Porque sabem que ele é competitivo”, afirmou. Para Kassab, as rejeições de Lula e Flávio tendem a crescer durante a campanha, enquanto Caiado poderá apresentar sua experiência administrativa.
As declarações ocorrem em meio ao aumento da tensão entre as campanhas de Caiado e Flávio. Aliados do candidato do PL acusaram o PSD de funcionar como “linha auxiliar” da reeleição de Lula, depois de Kassab afirmar que Flávio teria “chance zero” de vencer a eleição, devido à alta rejeição. Caiado rebateu a ofensiva dizendo que sua candidatura é independente e lembrando sua trajetória de oposição ao PT.
Metas para as contas públicas
Na economia, Caiado procurou marcar distância tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro. O candidato fez críticas especialmente duras à condução fiscal do atual governo. “Lula não acredita em equilíbrio fiscal”, afirmou. Segundo ele, o governo “falsifica o arcabouço” para apresentar seus resultados e mantém uma política de expansão de gastos incompatível com a estabilização da dívida pública.
Flávio, por sua vez, foi criticado pela falta de experiência administrativa e, na avaliação de Caiado, pela ausência de compromissos quantitativos para a economia. “Flávio Bolsonaro não diz nada, nunca administrou nada. Lula é perdulário e populista”, afirmou o candidato do PSD.
Caiado argumentou que propostas genéricas de privatização, reforma administrativa, venda de ativos ou redução do número de ministérios não são suficientes para transmitir previsibilidade ao setor privado. “O que a gente precisa neste momento é de algo que o empresário possa medir”, disse. Sua principal promessa é conter o crescimento das despesas já no primeiro ano de governo e obter, ao final desse período, uma redução entre 1,5 e 2 pontos percentuais na relação entre a dívida pública e o PIB. “Fomos os únicos que demos número”, afirmou.
O candidato relacionou o elevado custo do dinheiro no Brasil à deterioração fiscal. Segundo ele, juros reais próximos de 10% comprometem especialmente setores dependentes de capital de giro, como o varejo. A recuperação da credibilidade fiscal, argumentou, seria condição para reduzir o custo do financiamento e destravar o investimento privado.
Tecnologia para superar a economia de commodities
Outro eixo do discurso foi a necessidade de aumentar o conteúdo tecnológico da economia brasileira. Caiado criticou a dependência histórica da exportação de matérias-primas e afirmou que o país continua vendendo commodities de maneira semelhante à exploração do “pau-brasil”. Citou o nióbio como exemplo de um recurso estratégico exportado sem que o Brasil capture todo o valor potencial de sua transformação tecnológica.
Como referência para uma política nacional, apresentou a experiência de Goiás na área de inteligência artificial. Segundo Caiado, seu governo criou, com investimento inicial de R$ 12 milhões, um centro e um curso voltados à IA que posteriormente firmaram cerca de R$ 500 milhões em contratos. O candidato citou projetos com empresas como iFood, Itaú e Positivo, além de uma parceria com a Nvidia para o desenvolvimento de chips. Disse ainda que novos R$ 50 milhões estão sendo investidos na iniciativa.
Para Caiado, a ausência de um marco regulatório adequado para a inteligência artificial e os entraves impostos à pesquisa ajudam a explicar a dificuldade brasileira de avançar em setores de maior valor agregado. O candidato defendeu uma estratégia baseada em ciência, tecnologia e parcerias com empresas privadas para reduzir a dependência de commodities e produtos industriais importados.
Segurança como eixo de governo
A segurança pública ocupou parte expressiva da apresentação. Caiado afirmou que o tema “não é escolhido, é um tema que se impõe” diante da expansão das organizações criminosas. Citou estimativas segundo as quais entre 55 milhões e 60 milhões de brasileiros viveriam, em diferentes graus, sob influência do crime organizado e advertiu para a infiltração das facções em atividades econômicas legais e estruturas do poder público.
Também nesse terreno buscou confrontar os dois principais adversários. Acusou o PT de ter sido “leniente” com o tráfico e afirmou que o avanço das organizações criminosas já ameaça a soberania nacional e pode produzir consequências econômicas, inclusive restrições comerciais internacionais. Contra Flávio Bolsonaro, questionou a efetividade de um discurso duro sobre segurança sem experiência de gestão na área. “Fazer comício em Copacabana é fácil, difícil é no Borel”, provocou.
Caiado apresentou os resultados de Goiás como credencial. Recordou que quatro das dez cidades mais violentas do país em 2018 estavam no estado e afirmou ter reorganizado as polícias, criado batalhões especializados, reforçado a inteligência operacional e implantado, a partir de 2019, ferramentas de inteligência artificial para antecipação e combate ao crime. Também destacou mudanças no sistema penitenciário destinadas a isolar lideranças de facções e reduzir sua capacidade de comandar atividades criminosas de dentro das prisões.
No plano federal, prometeu criar um Ministério da Segurança Pública e afirmou ter convidado o procurador de Justiça Lincoln Gakiya para comandar a pasta. Também defendeu a tipificação do “terrorismo doméstico”, que, segundo ele, permitiria mobilizar de maneira integrada recursos e forças de segurança, e propôs acordos com países vizinhos para ampliar a cooperação policial e o compartilhamento de inteligência nas fronteiras.
Violência contra a mulher
Caiado deu destaque especial ao combate à violência contra a mulher. Ao falar de sua experiência no governo de Goiás, afirmou ter criado estruturas específicas da Patrulha Maria da Penha nos batalhões policiais e políticas de acompanhamento dos agressores, incluindo a obrigação de retorno periódico à delegacia.
O candidato defendeu maior rigor contra autores de feminicídio e agressões domésticas e afirmou que pretende propor mudanças na legislação para ampliar a punição. Entre as medidas mencionadas estão o cumprimento de 90% da pena em casos de feminicídio, pena máxima de 45 anos e o confisco do patrimônio do agressor em favor da mulher ou dos filhos.
Para Caiado, as medidas protetivas precisam ser acompanhadas por uma estrutura estatal capaz de agir antes que a violência escale. Ele citou como exemplo a criação de unidades Maria da Penha nos batalhões e de uma rede de assistência às vítimas em Goiás, que inclui apoio habitacional a mulheres agredidas.
Ao longo do encontro, Caiado procurou apresentar sua candidatura como alternativa à polarização, combinando oposição ao governo Lula com críticas cada vez mais diretas a Flávio Bolsonaro. A experiência administrativa foi o fio condutor do discurso: das contas públicas à segurança e da política tecnológica à proteção das mulheres, o candidato insistiu que a disputa presidencial deve ser feita não apenas em torno de posições políticas, mas de metas mensuráveis e resultados de gestão.
O evento
O almoço Brasil de Ideias – Especial Eleições foi realizado no Espaço de Eventos Trio ONE, no Edifício Berrini One, Esse foi também o endereço do encontro com Romeo Zema, candidato do Partido Novo, em julho. A vinícola gaúcha Lídio Carraro forneceu os vinhos, produzidos segundo a “filosofia purista” adotada pela família que há mais de cinco décadas se dedica a esse metiê. O método envolve a colheita manual em vinhedos próprios e a vinificação por parcelas, sem madeira, filtração, adição de açúcares ou correções enológicas.




