Um estereótipo persistente sustenta que empresas familiares são conservadoras, avessas à inovação e pouco adaptadas às exigências de uma economia cada vez mais tecnológica e competitiva. Quem lança um olhar atento sobre o capitalismo global sabe que essa é apenas uma meia-verdade.
Empresas familiares podem, de fato, se tornar excessivamente cautelosas, prisioneiras da tradição ou da influência de seus fundadores. Mas aquelas que conseguem institucionalizar a inovação tendem a se transformar em atores formidáveis da economia contemporânea — em boa medida porque combinam essa capacidade de renovação com atributos que lhes são característicos, como visão de longo prazo, estabilidade acionária e forte identidade organizacional.
Family Business Index
O paradoxo é que a mesma estabilidade que pode produzir acomodação também pode fornecer os recursos, a paciência e a continuidade necessários para apostas estratégicas de longo prazo. O Brasil abriga exemplos notáveis desse fenômeno, como demonstra o Family Business Index, levantamento bienal produzido pela EY em parceria com a Universidade de St. Gallen que reúne as 500 maiores empresas familiares do mundo.
Na edição divulgada em 2025, o país aparece com 13 representantes entre as companhias analisadas (veja quadro). Juntas, elas ajudam a ilustrar como o capitalismo familiar brasileiro continua capaz de produzir organizações competitivas em escala global.
O peso dessas empresas transcende em muito o universo dos negócios familiares. Segundo o Family Business Index 2025, as 500 companhias listadas somam receitas de aproximadamente US$ 8,8 trilhões por ano. Se formassem uma economia nacional, constituiriam o terceiro maior PIB do planeta, atrás apenas de Estados Unidos e China. O grupo emprega cerca de 25 milhões de pessoas em diferentes continentes e reúne empresas que, em média, atravessaram mais de oito décadas de transformações econômicas, tecnológicas e políticas.
Longevidade
Mais impressionante que sua escala é sua longevidade. Quase um terço das empresas presentes no índice tem mais de cem anos de existência, evidência de uma capacidade rara de adaptação a mudanças tecnológicas, econômicas e geopolíticas. A força institucional dessas organizações também se manifesta em sua capacidade de consolidar mercados. Quase metade das empresas presentes no índice realizou ao menos uma aquisição relevante nos últimos anos, transformando-se em agentes ativos de reorganização setorial.
O Brasil oferece exemplos eloquentes desse movimento. A JBS construiu sua posição entre as maiores empresas de alimentos do mundo por meio de uma longa sequência de aquisições internacionais. A Gerdau, por sua vez, transformou-se de siderúrgica nacional em grupo industrial multinacional. Parcela significativa de sua receita provém atualmente das operações na América do Norte. Em ambos os casos, o crescimento não ocorreu apesar do controle familiar, mas em coexistência com ele.




