Sem declarações públicas desde a última terça (27), o presidente reeleito ainda não deu partida no motor do novo governo, mesmo com a rápida deterioração das expectativas econômicas.
Há uma sensação generalizada de que o governo precisa de uma sinalização sobre o rumo da política econômica. Só a partir daí que outros assuntos podem ser resolvidos.
O gargalo econômico da transição
O ministro da Fazenda — cargo mais sensível da transição — não foi anunciado. Lula trata a antecipação como “concessão indevida ao mercado” e só deve indicar após viagem internacional, com retorno previsto para o fim de novembro.
Circulam três nomes: Geraldo Alckmin (boa aceitação no mercado), Rafael Fonteles (sinalização de ortodoxia fiscal) e Dario Durigan (possibilidade de permanência).
No Banco Central, a situação é ainda mais crítica: haverá seis vagas na diretoria a preencher até 2027, sendo duas – Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro – já estão aguardando seus novos ocupantes.
O perfil dos indicados é o coração da incerteza porque teme-se que o governo possa tentar isolar Gabriel Galípolo com diretores politicamente orientados a trabalhar de forma alinhada com o Planalto.
Sem nomes, o mercado não precifica a agenda fiscal. A indefinição parece ser deliberada e desenhada para testar a paciência do mercado.Nos bastidores, afirma-se que o anúncio da Fazenda será feito depois de 20 de novembro, tornando-se o evento mais importante e esperado do calendário político
A “solidez” da coalizão – funcional, mas em teste
O governo saiu da eleição com um capital eleitoral sólido e se beneficia da desorganização temporária da oposição.
A disputa pela presidência do Senado opõe Rogério Marinho (PL) e Tereza Cristina (PP) e lideranças evangélicas buscam distanciamento estratégico do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro está isolado nos Estados Unidos e isso reduz a pressão oposicionista sobre a coalizão de governo.
Mas há conflitos encapsulados na base – com atores disputando protagonismo – e uma engenharia difícil para incorporar novos apoios em um arcabouço de fidelidade política que está aposentado há muito tempo: ministérios por apoio absoluto das bancadas à agenda do governo.
Nesse sentido, a PEC da Segurança é o primeiro teste real sobre o potencial futuro da coalizão de governo. A proposta traz uma emenda que reduz a maioridade penal para 16 anos — tema com divergência interna no próprio PT.
A confiança (abalada) do mercado
O mercado teme que Lula indique diretores lenientes com a inflação para o Banco Central, isolando Gabriel Galípolo no Copom. A preocupação é amplificada pela estrutura do endividamento público:
- Cerca de R$ 4,8 trilhões dos R$ 9,8 trilhões da Dívida Pública Federal são indexados à Selic.
- 73,4% do total vence em até cinco anos.
- 26% das empresas de capital aberto já não conseguem honrar despesas financeiras com a geração de caixa operacional.
O debate em torno da proposta de André Lara Resende — Selic a ~7,5% com desindexação da dívida — recebeu apoio de quadros petistas (Gleisi Hoffmann, José Gabrielli). O mercado lê isso como sinal ideológico de risco, ainda que não seja política oficial.
O mercado já aposta na parada do ciclo de queda da Selic. A confiança está erodida por incerteza de sinalização, com o governo testando a paciência de todos enquanto não diz “nem quem vai dar as cartas e nem quando isso vai acontecer”.
Agenda de eventos no horizonte relevante
O anúncio do ministro da Fazenda e o perfil dos nomes para o Banco Central.
A votação da PEC da Segurança no Senado (3/11).
A definição da alíquota da CBS até 15 de dezembro.




