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A eleição acabou. O clima piorou. E agora?

Um guia de sobrevivência para o Brasil pós-eleições

Há 16 horas • por Karim Miskulin
A eleição acabou. O clima piorou. E agora?
Ato popular na Avenida Paulista. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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5:31

2026 não foi um ano fácil para o Brasil.

Foi um ano de instabilidade econômica, de tensões institucionais, de crises praticamente diárias, agravadas por um cenário internacional igualmente turbulento.

E, como se tudo isso não bastasse, vivemos uma das eleições mais atípicas e surpreendentes da nossa história recente.

Uma eleição marcada por uma expressiva vitória da direita no primeiro turno e por uma reviravolta que levou a esquerda à vitória no segundo.

Mas o que chama a atenção, nesses primeiros dias depois das urnas, é que o ambiente político e social, em vez de melhorar, parece ter piorado.

A eleição terminou. Mas a guerra, não.

As pessoas continuam se atacando, se insultando, ameaçando umas às outras, rompendo amizades e até relações familiares por divergências políticas.

E isso tem um custo enorme. Para as famílias, para as amizades, para as empresas, para o ambiente de negócios e, sobretudo, para o futuro do Brasil.

Por isso, quero compartilhar três reflexões. Uma espécie de guia de sobrevivência para o Brasil pós-eleições.

Primeiro: os governos passam. As famílias, as amizades e as empresas ficam.

Nenhum governo pode ser maior do que a nossa capacidade de construir, produzir, empreender e conviver.

Precisamos encontrar caminhos para seguir em frente independentemente de quem esteja no poder. A nossa vida, os nossos projetos e o nosso futuro não podem ficar permanentemente reféns das disputas políticas.

Segundo: divergência ideológica não é licença para agressão pessoal.

É absolutamente legítimo discordar. É legítimo defender ideias, combater projetos políticos e fazer oposição.

O que não é legítimo é transformar essa disputa em ameaças, humilhações, mentiras, ataques pessoais e tentativas de destruição da reputação de quem pensa diferente.

A democracia pressupõe o conflito de ideias. Não a destruição das pessoas.

Terceiro: precisamos reaprender a respeitar o adversário.

A política deveria nos ensinar uma lição muito simples, que o esporte conhece tão bem.

Dentro de campo, a disputa é intensa. Há rivalidade, confronto, paixão. Mas, quando o jogo termina, os adversários precisam ser capazes de se cumprimentar.

Na política deveria ser assim.

Não precisamos concordar. Não precisamos gostar uns dos outros. Mas precisamos reconhecer no outro o direito de pensar diferente.

E é justamente esse respeito que parece estar desaparecendo.

O mais preocupante é que essa intolerância não está restrita à política. Ela avança pelo mundo e encontra espaço até mesmo onde deveria ser combatida: nas universidades.

As universidades deveriam ser grandes centros de formação do pensamento crítico, de aprofundamento das ideias e de convivência com a diversidade intelectual.

Mas parte do ambiente universitário parece ter se transformado em território de militância radicalizada, onde a divergência deixa de ser intelectual e passa a justificar comportamentos profundamente desumanos.

Um episódio emblemático foi o de uma estudante brasileira que, após o assassinato do ativista conservador americano Charlie Kirk, publicou manifestações celebrando sua morte e zombando do sofrimento de sua família.

Independentemente de qualquer posicionamento político, como alguém pode comemorar um assassinato? Como é possível transformar a dor de uma viúva e de seus filhos em motivo de celebração?

O pedido de desculpas posterior, diante das consequências pessoais e profissionais de suas manifestações, não apaga a gravidade do que foi dito.

Esse episódio revela algo muito maior do que uma divergência ideológica.

Revela a perda da compaixão. A banalização da crueldade. A incapacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.

E talvez seja esse o maior desafio do nosso tempo.

Não permitir que as nossas convicções políticas sejam maiores do que a nossa própria humanidade.

Porque, no fim das contas, não existe sociedade civilizada sem três valores fundamentais: respeito, dignidade e compaixão.

Sem esses valores, não haverá governo, partido, eleição ou projeto econômico capaz de construir um grande país.

E o Brasil continuará sendo aquilo que, infelizmente, tem sido por tanto tempo: uma eterna promessa de potência.

Um país extraordinário, com recursos, talentos e oportunidades, mas incapaz de superar suas próprias divisões.

Um país que desperdiça oportunidades históricas porque não consegue construir sequer um mínimo de convivência entre os seus próprios cidadãos.

A eleição acabou. Os vencedores vão governar. Os derrotados terão o direito e o dever de fazer oposição.

Mas nenhum resultado eleitoral deveria nos fazer esquecer que, antes de sermos de direita ou de esquerda, somos seres humanos.

E talvez a maior vitória que o Brasil precise conquistar agora não seja eleitoral. Seja civilizatória.

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