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POLíTICA

STF faz acenos sobre futuro de Bolsonaro

Movimentos recentes no STF abriram discussão sobre a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, no processo da tentativa de golpe de Estado

Há 1 hora • por Melissa Fernandez
STF faz acenos sobre futuro de Bolsonaro
O ministro Kassio Nunes Marques. Foto: Victor Piemonte/STF
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8:30

Movimentos recentes no Supremo Tribunal Federal (STF) abriram uma nova frente de discussão sobre a situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e três meses de prisão no processo da tentativa de golpe de Estado. Embora ainda não exista uma maioria conhecida pela revisão da condenação, manifestações e movimentações de ministros indicam que a possibilidade de mudança na situação do ex-presidente deixou de ser apenas uma hipótese levantada por sua defesa e passou a integrar o debate interno da Corte.

O primeiro sinal ventilado na imprensa veio do ministro Kassio Nunes Marques, relator da revisão criminal apresentada pela defesa de Bolsonaro. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo e pelo JOTA, o ministro avalia conceder uma liminar capaz de alterar a situação do ex-presidente e pretende avançar na análise do caso depois do segundo turno das eleições. A alternativa seria levar diretamente a controvérsia para julgamento colegiado.

A revisão criminal é diferente dos recursos apresentados durante o processo que resultou na condenação. Trata-se de um instrumento previsto para questionar uma sentença já definitiva e pode resultar na anulação da condenação, na alteração da classificação dos crimes ou na redução da pena. O próprio STF informou, quando a ação foi apresentada em maio, que a competência para o julgamento da revisão é do Plenário da Corte.

A defesa sustenta, entre outros pontos, que houve cerceamento do direito de defesa, problemas no acesso ao conjunto de provas e falta de individualização das condutas atribuídas ao ex-presidente. Também questiona o fato de Bolsonaro ter sido julgado pela Primeira Turma, e não pelo plenário. Em uma nova ofensiva apresentada no fim de setembro, os advogados passaram a utilizar declarações feitas pelos próprios ministros em outros processos para reforçar a tese de que a defesa deveria ter recebido mais tempo para examinar o material reunido durante a investigação.

É justamente nesse ponto que acontecimentos recentes dentro do Supremo ganharam importância para a estratégia jurídica de Bolsonaro. Durante discussões relacionadas ao caso Banco Master, Alexandre de Moraes afirmou que julgadores deveriam dispor de tempo suficiente para analisar grandes volumes de informações. A defesa passou a argumentar que raciocínio semelhante deveria ter sido aplicado no processo da tentativa de golpe, no qual afirma ter enfrentado dificuldades para examinar dezenas de terabytes de dados. Isso não significa que Moraes tenha revisto sua posição sobre Bolsonaro, mas forneceu aos advogados um argumento adicional para tentar demonstrar tratamento processual desigual.

Divisão no Supremo

O cenário, entretanto, está longe de indicar consenso.

Nunes Marques é hoje o ministro que apresenta o sinal mais claro de disposição para rever a situação de Bolsonaro. Luiz Fux também ocupa posição relevante nessa equação: no julgamento da ação penal, foi o único integrante da Primeira Turma a votar pela absolvição do ex-presidente. Segundo a Folha, André Mendonça também tende a acompanhar uma revisão da condenação.

Do outro lado estão os quatro ministros que votaram pela condenação — Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin. Gilmar Mendes também é apontado como contrário à revisão criminal nos termos apresentados atualmente. As posições de Dias Toffoli e do presidente do STF, Edson Fachin, aparecem como menos definidas publicamente nesse novo cenário.

Há ainda um precedente recente que recomenda cautela na interpretação de que o Supremo já estaria caminhando para libertar Bolsonaro. Em março, a Primeira Turma chegou a confirmar por unanimidade uma decisão de Moraes que mantinha o ex-presidente preso. Posteriormente, Bolsonaro passou ao regime domiciliar por razões humanitárias relacionadas à saúde. Em julho, Moraes decidiu mantê-lo em casa, levando em consideração a evolução de seu quadro clínico e a ausência de falta grave.

A mudança relevante, portanto, não está necessariamente na posição dos ministros que condenaram Bolsonaro, mas na abertura de uma nova arena para discutir a condenação.

O obstáculo da coisa julgada

Outro elemento importante é a manifestação da Procuradoria-Geral da República. Em junho, o procurador-geral Paulo Gonet pediu que a revisão criminal fosse rejeitada. Para a PGR, a defesa não apresentou fatos novos capazes de justificar a desconstituição de uma sentença já transitada em julgado. Gonet sustentou que a condenação está baseada em um conjunto probatório robusto e que as teses levantadas pelos advogados já foram analisadas ao longo do processo.

Esse é um dos pontos centrais do debate jurídico. Revisões criminais não funcionam como uma nova rodada ordinária de recursos. A defesa precisa demonstrar alguma das hipóteses que autorizam a reabertura de uma condenação definitiva, como incompatibilidade da decisão com as provas, utilização de provas falsas ou surgimento de novos elementos relevantes para a inocência ou para a redução da pena.

Por isso, uma eventual decisão favorável a Bolsonaro teria repercussão que ultrapassa a situação individual do ex-presidente. O STF teria de definir se as alegações sobre acesso às provas, competência do órgão julgador e garantias da defesa são suficientes para reabrir uma condenação já encerrada.

Componente político

O calendário adiciona uma dimensão política inevitável ao caso. Nunes Marques pretende avançar na análise somente depois do segundo turno, segundo relatos publicados pela imprensa. A decisão reduz o risco de uma mudança na prisão de Bolsonaro interferir diretamente na disputa presidencial, ao mesmo tempo em que coloca o julgamento no centro da agenda institucional do período pós-eleitoral.

A nova composição política resultante das eleições também aumentou a pressão sobre o Supremo. Ministros ouvidos reservadamente pela Folha avaliam que, apesar do crescimento de forças políticas críticas à Corte no Senado, ainda poderá ocorrer algum tipo de acomodação institucional depois das eleições. Nesse ambiente, a situação de Bolsonaro tende a permanecer como um dos principais pontos de tensão entre política e Judiciário.

Isso não permite concluir que uma negociação política determinará o resultado da revisão criminal. Formalmente, os ministros terão de decidir com base nos argumentos e requisitos jurídicos da ação. Mas o julgamento ocorrerá em um contexto de forte pressão externa sobre o tribunal e de divergências internas que ficaram mais evidentes ao longo de 2026.

Até agora, portanto, os sinais do STF são ambíguos. Há uma porta processual aberta e um relator disposto a discutir a possibilidade de alterar a situação de Bolsonaro. Também existem ministros que podem formar um núcleo favorável à revisão. Por outro lado, permanece um grupo expressivo contrário à reabertura da condenação, além de um parecer da PGR pela rejeição do pedido.

Mais do que indicar que a soltura esteja encaminhada, os movimentos recentes mostram que a situação de Bolsonaro voltou a ser uma questão em aberto dentro do Supremo. A próxima definição de Nunes Marques — uma eventual liminar ou o envio da revisão para julgamento colegiado — deverá mostrar se essa discussão permanecerá restrita a uma divergência entre ministros ou se poderá produzir uma mudança concreta na execução da pena do ex-presidente.

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