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POLíTICA

O apoio a Lula e o cálculo de Motta

Presidente da Câmara se move para preservar aliança com o Planalto e construir maioria para permanecer no comando da Casa em 2027

Há 46 dias • por Melissa Fernandez
O apoio a Lula e o cálculo de Motta
O presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente da República, Lula, durante evento. Foto: Marina Ramos / Câmara dos Deputados
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Muito se fala da disputa eleitoral que tem mobilizado os eleitores canto a canto do país. Mas há uma segunda disputa, menos visível ao eleitor, que ajuda a explicar o movimento do presidente da Câmara, Hugo Motta: a eleição para o comando da Casa em fevereiro de 2027. O gesto de anunciar apoio à reeleição do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, deve ser lido menos como uma conversão política à esquerda e mais como parte da construção da coalizão que vai desenhar a governabilidade do próximo biênio.

A operação tem lógica conhecida na Câmara. Eleições para a Mesa não são definidas exclusivamente pela força das bancadas, mas pela capacidade do candidato de produzir uma composição suficientemente ampla para reduzir o espaço de alternativas competitivas. Foi justamente essa engenharia que levou Motta à presidência da Casa, uma candidatura construída a partir do Centrão, mas com adesões que atravessaram praticamente todo o espectro partidário.

Reproduzir essa coalizão em 2027 será mais difícil. A eleição de outubro vai redesenhar o tamanho das bancadas e alterar a correlação de forças entre os partidos. Mais importante: Motta chegará à disputa não mais como candidato à sucessão, capaz de acomodar diferentes expectativas, mas como presidente buscando permanecer no cargo. E, portanto, carregando o desgaste natural de dois anos de decisões, acordos e contrariedades.

É aqui que Lula entra na equação.

Pacto antecipado

Caso seja reeleito, o presidente terá interesse direto na composição da Mesa que comandará a Câmara durante os dois primeiros anos do novo mandato. O aceno feito por Motta desde agora pode ser lido como tentativa de evitar que o Planalto estimule ou dê musculatura a uma candidatura alternativa em fevereiro. Interessa ao presidente da Câmara assegurar que o governo opere politicamente em favor de sua recondução à presidência da Casa Baixa.

O movimento também atende ao Planalto. Lula conhece o custo de começar um mandato diante de um presidente da Câmara centralizador e excessivamente autônomo. Uma eventual recondução de Motta, precedida por um entendimento construído ainda durante a campanha presidencial, oferece ao petista a possibilidade de entrar em 2027 com um interlocutor conhecido e, sobretudo, politicamente comprometido com a manutenção dessa relação.

Há, portanto, uma espécie de pacto antecipado em formação. Motta oferece agora aquilo que possui de maior valor político: o peso institucional da presidência da Câmara e sua capacidade de interlocução com o centro, justamente no momento em que Lula precisa ampliar sua coalizão eleitoral para além da esquerda. Em fevereiro, caso o petista esteja novamente no Planalto, a moeda de troca muda. Será Motta quem precisará da capacidade de articulação do governo para consolidar maioria na Câmara.

Republicanos

O Republicanos é uma peça importante dessa articulação. A neutralidade partidária na disputa presidencial permite a Motta se movimentar sem produzir, ao menos formalmente, uma adesão coletiva ao lulismo. Preserva-se a autonomia da legenda e, principalmente, suas pontes com a direita, enquanto seu principal quadro institucional investe na relação com o atual ocupante do Planalto.

A aposta, evidentemente, carrega risco eleitoral. Uma vitória da oposição mudaria completamente o ambiente de fevereiro e poderia transformar o apoio a Lula em argumento para adversários interessados em apresentar uma candidatura mais próxima do novo governo. É por isso que a movimentação de Motta também revela uma avaliação sobre o cenário eleitoral: o presidente da Câmara parece considerar que o benefício de construir antecipadamente uma ponte com Lula supera, neste momento, o custo potencial de uma alternância no Planalto.

No fundo, são duas eleições que se constroem juntas. A presidencial será decidida nas urnas em outubro; a da Câmara, pelos deputados em fevereiro. Mas para Hugo Motta, politicamente, as duas já fazem parte da mesma operação.

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