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POLíTICA

Discurso de Lula mostra preocupação excessiva com lugar na história

Petista quer ser consagrado como garantidor da soberania e do desenvolvimento, não só pelo Bolsa Família

Há 53 dias • por Leonardo Barreto
Discurso de Lula mostra preocupação excessiva com lugar na história
Lula ao lançar sua candidatura. Foto: Divulgação/PT
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6:53

No discurso de “aceite” da indicação para concorrer pela sétima vez à presidência do Brasil, Lula fez uma digressão autobiográfica mostrando a sua preocupação com o papel que terá na história. O que emergiu daí não traz uma boa mensagem: excesso de foco na própria história, impaciência com limites institucionais, disposição para conflito e sentimento de autossuficiência.

Esse traço dominante da sua personalidade fica explícito na abertura da sua fala. Ao explicitar que este seria o seu último mandato (“não vou ter chance de disputar o penta”) e projetar longas férias subsequentes, ele constrói sua pré-candidatura como uma transição e um encerramento histórico. Além disso, ao apontar Fernando Haddad como potencial sucessor, ele se posiciona não apenas como candidato, mas como tutor da transição da esquerda.

Alvos

Como alguém que busca meios de realização pessoal plena, seu primeiro alvo são os limites que ele identifica às suas pretensões. É nesse contexto que ele reclama da perda de prerrogativas do Poder Executivo em favor do Congresso Nacional (citando a criação de universidades por parlamentares, emendas e indicações institucionais) e do controle exercido pelo Senado na nomeação de ministros para o STF.

Ele antecipa dois conflitos institucionais para retirar barreiras contra sua atuação. O que ficou subentendido para a classe política é que um novo mandato não reproduzirá a acomodação fiscal/orçamentária atual, antecipando uma disputa entre os poderes (“vai ter briga com emenda parlamentar”).

Suas críticas também são direcionadas à perda de vitalidade da esquerda – tema constante de suas falas – em razão de uma acomodação e burocratização gerada pelo acesso fácil ao Fundo Partidário que, ele diz, “está levando os partidos à promiscuidade” e à perda do trabalho de base. Assim, ele cobra engajamento militante orgânico em vez de dependência financeira do Estado.

Exaltação de si próprio

Mas suas principais mensagens fazem uma exaltação de si mesmo. A narrativa trouxe inúmeras referências pessoais, como Vila Euclides, torneiro mecânico, Dona Lindu, a mística do sindicalismo do ABC de 1979, a origem popular genuína com algo inédito na história brasileira e uma suposta predestinação.

Lula claramente se coloca como herói. Ele se representa como a personificação do “milagre” operário, como o dínamo da militância de base e de uma aliança partidária progressista, comparando-se apenas a Getúlio Vargas.

Vilões

Como todo o herói precisa de um vilão, Lula mostra a serventia que Jair Bolsonaro teve para ele. O combate à “extrema direita” foi a chance de reescrever sua trajetória, apagando os escândalos de corrupção e erros de política econômica.

Os vilões são a “extrema-direita”, “o traste”, a “elite colonizada”, com complexo de vira-lata em relação ao exterior, a burocracia que paralisa programas sociais e as manipulações tecnológicas por Inteligência Artificial. As vítimas são os idosos esquecidos pelas famílias e pelo Estado, as jovens grávidas precocemente, os estudantes desassistidos e as mulheres agredidas.

O discurso reduz a história da cidadania no Brasil a apenas dois grandes momentos de inclusão social legítimos: a era Getúlio Vargas (CLT e salário-mínimo) e a era PT (governos Lula/Dilma), apagando ou deslegitimando as contribuições de outros períodos constitutivos da Nova República (como a estabilização econômica do Plano Real).

Retórica

A dicotomia é o recurso retórico preferido de Lula e ele abusa de “dilemas”, contrastes radicais e o uso de binômios morais de difícil contestação pública. Por exemplo, quando fala da violência de gênero, afirma “ou ele vota em mim ou ele bate na mulher. Se bater na mulher, não precisa votar em mim.”

Também recorre a comparações assimétricas de custos, contrapondo o custo anual/mensal do sistema prisional com os custos por aluno de Institutos Federais/Universidades para enquadrar gastos sociais como única solução econômica racional.

Ao pedir desculpas por descumprimentos passados (“Peço desculpas pelos erros que cometi”) e admitir limitações institucionais, Lula constrói humanidade – depois de todo o esforço de autoproclamação – e desarma o apelo das críticas da oposição.

Como objetivos concretos, foi possível identificar na sua fala que ele quer: (i) reativar a base eleitoral; (ii) ampliar seu alcance de votos com a inclusão da pauta de Defesa/Forças Armadas, a proteção dos idosos e o discurso contra a violência moral/doméstica, temas que operam para reduzir a rejeição nos setores conservadores, evangélicos e militares; (iii) endereçar pautas do futuro, como inteligência artificial, transição energética e exploração de minerais críticos/terras raras, buscando ligar sua imagem a uma agenda que representa modernização econômica e tecnológica e; (iv) estabelecer um veto moral à oposição.

Metas

A fala encerra fixando o objetivo central da reeleição: impedir o retorno da oposição ao poder executivo (“não temos o direito de permitir que a extrema direita volte a governar”), transformando a disputa em um plebiscito sobre a manutenção do regime democrático/social.

Voltando à pergunta inicial, Lula, ao dizer que não quer ser lembrado como o “pai dos pobres”, coisa à qual o termo “presidente do Bolsa Família” remete, busca um lugar entre os fundadores do país, panteão que, segundo ele, só está ocupado por Getúlio.

Lula quer deixar de ser lembrado apenas como o líder populista (ou popular) que “deu comida aos pobres” para ser consagrado na história como o grandioso garantidor da soberania, do desenvolvimento e da educação do Brasil contemporâneo. Para isso, ele desenvolve um discurso de personificação da democracia, no qual ele e suas ideias para o país são a inspiração e o modelo fora do qual tudo é autoritário e entreguista.

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