Imagine uma agenda de segunda a sexta completamente tomada. Reuniões, viagens, decisões, entregas, pessoas pedindo, pessoas esperando. No fim do dia, centenas de mensagens no whatsapp. Nos fins de semana, as mensagens não param. Há compromissos que parecem urgentes demais para esperar e problemas que parecem grandes demais para delegar. Você carrega tudo isso com uma competência que muitos admiram.
E então, num raro momento de silêncio — talvez no avião, entre uma reunião e outra ou no quarto do hotel onde se hospeda — surge um sentimento que você não esperava encontrar ali. Não é tristeza, nem insatisfação, mas um vazio. É uma solidão estranha, silenciosa, que não combina com a vida agitada e cercada de pessoas que você construiu.
Epidemia
Em 2023, o médico-geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, publicou um relatório de 85 páginas declarando a solidão uma epidemia de saúde pública comparável, em risco de mortalidade, ao hábito de fumar 15 cigarros por dia. A Organização Mundial da Saúde criou, no mesmo ano, uma Comissão Internacional sobre Conexão Social, a primeira iniciativa global dedicada exclusivamente ao tema. Pesquisas do instituto Gallup ouvindo 142 países concluíram que um em cada quatro adultos no mundo se sente involuntariamente sozinho. No Brasil, uma pesquisa da Ipsos chegou a um nú mero ainda mais incômodo: somos um dos países mais solitários entre as 28 nações pesquisadas.
Solidão não é o mesmo que estar sozinho. É possível estar cercado de pessoas numa sala de reunião, em um jantar de gala, em uma festa que você mesmo organizou e sentir uma distância intransponível entre você e todos os outros. É possível ter centenas de contatos no celular e não ter com quem falar de verdade. É possível ser admirado por muitos e conhecido a fundo por quase ninguém.
Para quem chegou ao topo, essa distinção é especialmente pertinente. Uma pesquisa da Harvard Business Review descobriu que 55% dos CEOs reconhecem sentir solidão de forma significativa em seus cargos — e que 61% acreditam que esse isolamento compromete diretamente suas decisões. Não porque não há pessoas ao redor. Mas porque há poucas com quem é seguro ser verdadeiramente inteiro.
Gerenciar sentimentos
O mecanismo que produz essa solidão foi sendo construído ao longo de anos de carreira bem-sucedida. Para chegar aonde chegou, você aprendeu a administrar suas emoções para fora: a projetar confiança quando sentia dúvida, a manter a compostura quando sentia pressão, a dar respostas imediatas quando ainda precisava refletir mais. O hábito de gerenciar tudo o que se sente, se praticado por bastante tempo, tende a minimizar a capacidade de simplesmente sentir.
Os pesquisadores chamam esse fenômeno de dissonância emocional — o abismo entre a emoção vivida e a emoção expressa. É um estado de performance permanente que, segundo os estudos, está entre os fatores mais desgastantes na vida de líderes de alto desempenho. Não o estresse das grandes decisões, que é visível e tem nome. Mas o peso silencioso de nunca poder aparecer como de fato se está.
A epidemia de solidão que os pesquisadores descrevem tem raízes profundas e antigas: a cultura de produtividade que transformou o tempo livre em culpa, o trabalho remoto que substituiu o convívio por chamadas de vídeo, a aceleração do cotidiano que deixou cada vez menos espaço para as conversas que não têm pauta, para os encontros que não têm objetivo, para os silêncios compartilhados que são, no fim, onde a intimidade real vive.
Cuidado emocional
Reconhecer que está se sentindo sozinho — mesmo quando sua agenda não deixa espaço para ela — é um ato de cuidado emocional consigo mesmo.
Conseguir interromper o piloto automático por tempo suficiente para perceber que há algo que pede atenção não é fraqueza, pelo contrário, é exatamente o tipo de lucidez que distingue quem apenas executa de quem realmente lidera a própria vida.
Quando foi a última vez que você teve uma conversa — não uma reunião, não uma negociação, não uma troca de informações — mas uma conversa real, em que você pode aparecer por inteiro, sem agenda, sem papel a desempenhar, mostrando todas as suas fragilidades, medos e aflições?
A resposta que vier — e o tempo que você levar para encontrá-la — dizem tudo sobre a vida que você está, de fato, vivendo.
*Luciana Pianaro é mãe, empreendedora e escritora.
@lucianapianaro




