Como é possível que um presidente com 53% de rejeição seja favorito à reeleição? E que o segundo favorito tenha 56% no mesmo quesito? Olhando para esse cenário, por que uma terceira via aparenta ter tão poucas chances de se viabilizar?
Hoje, a explicação mais aceita é a seguinte: a alta rejeição de Lula e Flávio Bolsonaro não cria espaço para um outsider porque ela funciona como combustível da própria polarização.
O eleitorado não vota necessariamente por apoio ao seu candidato, mas sim pelo medo do adversário assumir o poder. O teto de cristalização em 63% de votos definitivos mostra que o eleitor prefere votar “tapando o nariz” no líder do seu campo do que arriscar um voto em uma terceira via desconhecida e abrir espaço para o polo que ele mais odeia vencer a eleição.
Mas é possível estressar um pouco essa explicação.
Análise de viabilidade
Considerando que, por essa lógica, vetar quem menos se gosta é tão ou mais importante do que eleger o candidato preferido, os eleitores tendem a fazer uma análise de viabilidade.
Nessa matriz estratégica, se Flávio Bolsonaro começar a parecer não ser competitivo contra Lula em um eventual segundo turno, as pessoas que rejeitam o petista podem buscar uma alternativa para derrotá-lo.
Essa hipótese, no entanto, esbarra em duas questões. A primeira é que nenhum dos candidatos alternativos da direita aparece como mais competitivo do que Flávio Bolsonaro em um segundo turno contra Lula. Em tese, isso pode ser revertido na medida em que os demais postulantes da direita se tornarem mais conhecidos do público. Pela pesquisa da Quaest, 74% não conhecem Joaquim Barbosa; 70% não conhecem Renan Santos; 51% não conhecem Romeu Zema e 48% não conhecem Ronaldo Caiado.
Identidade ideológica
Mas há uma segunda questão que esbarra na identidade ideológica. Entre bolsonaristas, não há garantia de um apoio maciço em um segundo turno de algum candidato que não tenha o sobrenome Bolsonaro.
No segundo turno contra Lula, 97% dos bolsonaristas votam em Flávio Bolsonaro. Se o candidato da direita for Romeu Zema, o voto bolsonarista cai para 78% (com uma fatia considerável preferindo anular ou se abster). Se for Ronaldo Caiado, o padrão se repete: apenas 81% dos bolsonaristas o apoiam.
Na prática, isso significa que Flávio Bolsonaro tem uma margem para variar negativamente e, ainda assim, manter-se diante da opinião pública como o anti-Lula mais viável.
Deve-se fazer a ressalva de que essa é uma “análise de laboratório”, que não considera variações no ambiente político. Ela é útil para analisar retratos de momento e criar um parâmetro de avaliação para projetar a evolução do cenário na medida em que eventos externos ocorrem.




