A pouco mais de quatro meses do início oficial da campanha eleitoral, executivos e investidores se reuniram nesta terça-feira, 2, no auditório da XP Investimentos em São Paulo, para discutir os cenários da disputa presidencial de 2026, durante mais uma edição do Brasil de Ideias – Análise Eleições 2026, promovido pelo Grupo VOTO.
Mediado por Karim Miskulin, presidente do Grupo VOTO, o encontro reuniu Fabio Zambelli, diretor de Public Affairs do Grupo In Press, Leonardo Barreto, diretor de análise política do Grupo VOTO e sócio da consultoria Think Policy, e Paulo Gama, head de análise política da XP Investimentos.
Entre os temas centrais estiveram a influência da geopolítica na eleição brasileira, o embate entre desejo de mudança e polarização e as preocupações do mercado financeiro com as propostas econômicas dos candidatos.
O peso da geopolítica
Um dos consensos do debate foi que a política internacional terá peso inédito na definição da corrida presidencial. O tema ganhou relevância adicional porque o evento ocorreu um dia depois de o governo americano sinalizar a imposição de tarifas de 25% sobre um amplo conjunto de produtos brasileiros. Para Zambelli, nunca uma eleição brasileira esteve tão sujeita às oscilações do cenário externo. “A volatilidade que observamos nas relações internacionais é inédita”, afirmou.
Os painelistas observaram que, num cenário de virtual empate entre as candidaturas do presidente Lula e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), questões conjunturais podem provocar deslocamentos modestos, mas decisivos, nas intenções de voto.
Nesse contexto, chamaram atenção os efeitos contraditórios da aproximação entre Flávio Bolsonaro e o presidente americano Donald Trump. O senador celebrou o encontro que teve com Trump na semana passada e a posterior decisão dos EUA de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A ameaça de um novo tarifaço, contudo, já começa a produzir desgaste político para o candidato, que opositores tentam apelidar de “Tariflávio”.
Leonardo Barreto alertou para o risco de se interpretar a crescente influência americana apenas pela lente eleitoral. Segundo ele, os analistas devem observar transformações mais profundas na política externa de Washington. “É uma pena que tenhamos de olhar a questão do Brasil na zona de influência dos EUA apenas sob o foco das eleições”, afirmou.
Barreto lembrou que os Estados Unidos divulgaram no ano passado uma nova doutrina de política externa que reposiciona o Brasil dentro de sua esfera de influência estratégica. Os efeitos disso serão duradouros, independentemente do resultado das urnas.
Preocupações do mercado
Paulo Gama destacou que empresários e investidores estarão especialmente atentos aos sinais emitidos pelos candidatos sobre a condução da política fiscal a partir de 2027. Segundo ele, a principal preocupação continua sendo a trajetória da dívida pública e a capacidade do próximo governo de enfrentar o crescimento das despesas obrigatórias.
“O rumo da política econômica e a disposição para fazer reformas estruturantes em 2027 serão os pontos que o mercado vai acompanhar”, afirmou. Na avaliação do analista, a dificuldade do mercado em formar convicções sobre o provável vencedor da eleição tende a manter elevado o grau de incerteza na precificação dos ativos ao longo da campanha.
Desejo de mudança e polarização
Karim Miskulin chamou atenção para um dos principais paradoxos revelados pelas pesquisas eleitorais recentes. Embora uma parcela expressiva dos eleitores manifeste desejo de mudança, o cenário permanece marcado pela mesma polarização que dominou as eleições de 2018, 2022 e agora se projeta para 2026.
Para Leonardo Barreto, a explicação passa pela incapacidade do sistema político de produzir alternativas competitivas. “O sistema político não consegue oferecer novidade”, resumiu. Segundo ele, Lula oferece ao eleitor uma espécie de “retropia” — a promessa de recuperar um passado considerado melhor por parte da população. Flávio Bolsonaro ainda preserva alguma margem para se apresentar como figura distinta do pai, apesar das limitações impostas pelo próprio sobrenome. “Ele ainda não é plenamente conhecido. Tem chance de se apresentar como alguém que não é o pai dele?”, questionou.
Nesse contexto, Zambelli destacou o dilema estratégico enfrentado pela campanha do senador. De um lado, a necessidade de se apresentar como renovação; de outro, a conveniência de capitalizar o legado político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Como exemplo, citou uma recente mudança na identidade visual da candidatura. Até pouco tempo, as peças de comunicação apresentavam apenas o nome “Flávio”. A letra final foi substituída por um círculo amarelo que remete à bandeira brasileira, acompanhado de uma faixa com o sobrenome Bolsonaro no lugar de “Ordem e Progresso”. Para o analista, o episódio ilustra a tentativa de equilibrar diferenciação e herança política.
Ao comentar o espaço para candidaturas alternativas, Zambelli reservou atenção especial ao fundador do MBL e candidato à presidência pelo partido Missão, Renan Santos. “Renan será a maior surpresa desta campanha — o que não significa que vá ganhar a eleição. É um ótimo comunicador, domina o ambiente digital e tem o melhor storytelling da disputa”, afirmou.




