Buscar
POLíTICA

Desencanto de eleitor não lulista e chances de Flávio são coisas diferentes

Aprovação do governo e intensidade do desejo de mudança do eleitor continuam sendo fatores os determinantes para o resultado da eleição

Há 127 dias • por Leonardo Barreto
Desencanto de eleitor não lulista e chances de Flávio são coisas diferentes
Eduardo Bolsonaro. Foto: Saulo Cruz/Agência Senado
Ouça este conteúdo Desencanto de eleitor não lulista e chances de Flávio são coisas diferentes
3:55

Na noite desta terça, 19, o dono do instituto Atlas/Intel, Andriei Roman, foi perguntado pelo jornalista Caio Junqueira se ele acreditava que a campanha de Flávio Bolsonaro estava comprometida. Ele afirmou que “sim” e que se a oposição pretendesse realmente vencer a eleições, teria que substituí-lo.

As forças de direita, no entanto, são incapazes de fazê-lo por ora, seja por falta de unidade, seja por falta de voto mesmo. Nesse sentido, a decisão de continuar ou não é exclusivamente do clã Bolsonaro.

Entre simpatizantes de direita não bolsonaristas, essa situação cria exasperação. Percebem que o objetivo da família Bolsonaro é manter seu butim político e sua condição de principal liderança antipetista. Para tanto, não é imperativo vencer a eleição presidencial.

Isso é correto. Mas esse egoísmo não é uma exclusividade do grupo Bolsonaro. É a regra comum de todos. Superada essa questão, é possível atentar para outros fatores.

Desejo de mudança

O mais importante deles remete a uma metáfora futebolística: oposição joga como time pequeno e só ganha se o adversário, sempre mais forte, errar.

Sabendo que o governo pode errar de diversas maneiras, é preciso estimar se o balanço final feito pelos eleitores vai suscitar ou não o desejo de mudança. É aqui que está chave de uma reeleição.

No artigo publicado nesta quinta no Valor, o jornalista César Felício diz que teve acesso a relatórios de pesquisas qualitativas a respeito do impacto das revelações da ligação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Embora traga na manchete que os eleitores independentes foram impactados, seu texto minimiza a situação.

Segundo ele, o senador “continua competitivo” porque o que o escândalo fez foi igualar Flávio Bolsonaro à média dos políticos. Pela lente do senso comum, “todos são ladrões”.

Se todos são iguais no quesito ético, o que vai decidir a eleição? Provavelmente o quão grande (ou não) é o sentimento de que é necessário mudar.

Aprovação de governo

Voltando ao texto de César Felício, os pesquisadores entrevistados dizem que “ainda joga a favor de Flávio o desejo de alternância no grupo de eleitores pendulares”. Os eleitores desta faixa querem renovação e Lula é a antítese da renovação. No relatório, os pesquisadores assinalam que o desejo de mudança é um ativo poderoso da oposição, mesmo quando seu candidato sofre dano moral.

Nesse sentido, o cientista político Alberto Carlos Almeida, que tem vasto histórico em estudos eleitorais, publicou no X no dia 18, após a divulgação do escândalo, uma mensagem com o seguinte teor: “Com os 30% de ótimo e bom do último DataFolha, Lula será derrotado por Flávio. Para que Lula se torne o favorito é preciso que o ótimo e bom de seu governo melhore.”

Apesar da pesquisa dessa semana, que mostra Lula lucrando com a desgraça de Flávio Bolsonaro, o fato é que a eleição continua sendo mais um julgamento sobre o desempenho do governo do que sobre os atributos morais do candidato oposicionista (desde que se mantenha num certo limite que hoje desconhecemos qual é).

É necessário fazer essa anotação porque o desencanto de eleitores não lulistas com Flávio Bolsonaro e sua decisão de voto são fenômenos que até podem aparecer relacionados, mas são, na sua essência, distintos.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER