O jornalista Fernando Exman fez uma comparação interessante entre Romeu Zema e Fernando Collor na sua coluna publicada nesta quarta, 22, no Valor.
Ele lembrou que, em 1989, o ex-governador de Alagoas e futuro presidente do Brasil, concorrendo por um partido nanico (PRN), ganhou popularidade se autoproclamando o “caçador de marajás”, em uma referência à corrupção e aos privilégios gozados por uma parcela do funcionalismo público.
Zema, também ex-governador e de um pequeno partido, lançou como mote de campanha “O Brasil sem intocáveis”. O paralelo é muito possível considerando que há, na opinião pública, um sentimento crescente de injustiça em razão da existência de privilégios de parte de integrantes do Estado, especialmente do Judiciário, e de imunidade de ministros do STF diante de revelações de envolvimento de alguns deles com personagens ligados a escândalos.
Azarão
Como um candidato de uma praça que ocupa menos o noticiário nacional, embora de enorme relevância eleitoral, Romeu Zema já viveu a condição de azarão e conseguiu quebrar uma polarização em Minas Gerais.
Em 2018, Fernando Pimentel (PT), que disputava a reeleição, e Antônio Anastasia (PSDB), que governou o estado entre 2010 e 2014, lideravam as pesquisas. Em agosto, Anastasia tinha 24%, Pimentel 14% e Zema 3%. Na véspera da eleição, uma pesquisa Datafolha deu Anastasia com 32%, Pimentel com 21% e Zema com 15%.
Apuradas as urnas no primeiro turno, Zema teve 42,73% dos votos, seguido por Anastasia, com 29,06% e por Pimentel, com 23,12%. No segundo turno, Zema foi eleito com 71,8% dos votos.
A vitória na eleição só foi possível porque tanto Anastasia quanto Pimentel tinham altos índices de rejeição, o que se repete com Flávio Bolsonaro e Lula.
STF como alavanca
Sendo Zema ainda desconhecido da população, precisa chamar atenção para o seu nome. Trazer a questão do STF por meio de uma série humorística de fantoches buscou aproveitar uma onda de indignação com denúncias que envolvem ministros, além da natural rejeição dos eleitores bolsonaristas pela cúpula do Judiciário.
Em um levantamento do Datafolha, 75% disseram acreditar que os ministros detêm “poder demais”. A AtlasIntel apontou que 60% dos brasileiros não confiam no trabalho dos ministros. A CNT/MDA mostrou que 38,3% afirmam categoricamente não confiar na Corte, enquanto 37,4% dizem confiar em “poucas decisões”. Para 72,9%, as decisões do STF não são transparentes.
A crítica de Zema ao STF ganhou força, no entanto, quando o ministro Gilmar Mendes pediu a sua inclusão no inquérito das Fake News. Com isso, ele despertou a solidariedade de parte da grande imprensa, que caracterizou o ato como exagerado, e a atenção de muitos brasileiros, “pescados” pelo noticiário.
Redes sociais
Nas redes sociais, Zema sentiu o impacto positivo da sua estratégia. Ele iniciou janeiro com 2,1 milhões de seguidores no Instagram e estava experimentando um crescimento orgânico de 20 mil seguidores por mês. Apenas nesta segunda, 21, no entanto, ele ganhou 100 mil seguidores, atingindo 2,3 milhões.
Comparativamente, ainda é pouco. O campeão das redes sociais, Nikolas Ferreira, tem 21,5 milhões de seguidores. Lula tem 14,2 e Flávio Bolsonaro tem 6,5.
O Google Trends, que mede o volume de buscas realizada no Google, mostra que o interesse pelo governador cresceu cumulativamente 257% desde janeiro. Na última semana, considerando as pesquisas feitas sobre os presidenciáveis, Zema ficou com 9%, superando Caiado (2,81%) e sendo superado por Lula (62,6%) e Flávio (25,49%).
Caiado
A montanha que Zema tem que escalar não é pequena. No entanto, pode-se dizer que, diferente de Caiado, ele já encaminhou a identidade da sua campanha e deu passos na direção de se tornar conhecido. A “ajuda” dada pelo STF foi significativa e os próximos passos serão relevantes: ações restritivas contra Zema por parte de Mendes e Alexandre de Moraes podem continuar funcionando como um catalizador.
Olhando para o panorama geral, Zema está abdicando de se apresentar como uma terceira via moderada. Ao crescer a partir de críticas ao sistema, ele se apresenta como parte da polarização e pode não demorar para que se dizer mais bolsonarista do que Flávio. Até agora, tem funcionado. Pelo menos Caiado, que também disputou a eleição de 1989, ele parece já ter deixado para trás.




