A corrida presidencial em Minas Gerais começou com vantagem para Lula, que busca o seu quarto mandato como presidente. Pesquisa DataTempo divulgada na última sexta, 26, mostra o petista liderando todos os cenários testados de primeiro e segundo turno no estado. No segundo turno, Lula supera Flávio Bolsonaro no estado por 52% a 35%. Mas o quadro está longe de ser definitivo. A escolha dos candidatos ao governo de Minas e as alianças estaduais poderão alterar significativamente a dinâmica da disputa local.
O dilema do PT
Para o PT, o principal desafio é construir um palanque competitivo depois da recusa do senador Rodrigo Pacheco em disputar o governo estadual. A direção nacional decidiu lançar candidatura própria, mas enfrenta resistência de seu nome mais competitivo. A ex-prefeita de Contagem, Marília Campos, prefere disputar uma vaga no Senado em vez de assumir candidatura ao Palácio Tiradentes. A primeira chance tem alta chance de sucesso, enquanto a segunda é mais do que duvidosa.
Outros nomes surgem como alternativas. O ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) foi sondado, mas hesita em vincular sua candidatura ao PT, apostando que poderá atrair naturalmente o eleitorado de esquerda caso se consolide como principal adversário da direita.
O ex-vereador Gabriel Azevedo (MDB) e o ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares (PSB) aparecem como opções capazes de ampliar alianças, mas ainda carecem de densidade eleitoral comparável à de Marília ou Kalil.
O fator Cleitinho
No campo adversário, o problema é diferente. O desafio de Flávio Bolsonaro é coordenar um campo político que mostra alguma fragmentação.
O ex-governador Romeu Zema também é candidato à presidência e fez duras críticas ao senador do PL depois da revelação de que ele pediu a Daniel Vorcaro que ajudasse no financiamento do filme Dark Horse. Zema deixou o governo com boa avaliação. Na pesquisa DataTempo, tem desempenho melhor do que Flávio Bolsonaro em Minas, num hipotético segundo turno contra Lula: marca 40,3% das intenções de voto, contra 47,6% do petista.
O plano A do PL é apoiar o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Mas ele demora a confirmar sua candidatura, sopesando o custo político de administrar um estado fortemente endividado e também a vantagem estratégica de adiar sua decisão. Enquanto mantém o PL à espera, preserva seu capital político e amplia seu poder de negociação às vésperas das convenções partidárias.
O espelho mineiro
Minas Gerais tem importância histórica nas eleições presidenciais. O estado reúne cerca de 16 milhões de eleitores, é o segundo maior colégio eleitoral do país e, desde 1998, nenhum presidente foi eleito sem vencer também entre os mineiros.
A formação de um palanque estadual favorece os presidenciáveis de diversas formas: amplia a capilaridade territorial da campanha, ajuda a mobilizar as máquinas partidárias regionais e aumenta sua exposição no horário eleitoral gratuito de rádio e televisão, onde as campanhas majoritárias costumam dialogar.
Cientistas políticos atribuem tal centralidade também ao fato de Minas funcionar como um microcosmo do Brasil. O Norte e o Vale do Jequitinhonha apresentam padrões semelhantes aos do Nordeste; o Sul aproxima-se de São Paulo; a Zona da Mata sofre forte influência do Rio de Janeiro; e o Triângulo Mineiro mantém vínculos econômicos e culturais com o Centro-Oeste.
Essa diversidade faz do estado um dos melhores espelhos do comportamento eleitoral nacional, razão pela qual campanhas presidenciais tradicionalmente investem tanto na construção de palanques locais.
Mudanças estruturais
Embora essa leitura continue influente, a eleição de 2026 pode introduzir variáveis capazes de relativizar o peso dos palanques estaduais.
O fortalecimento político dos prefeitos, impulsionado pelo aumento das emendas parlamentares, tornou as redes municipais mais autônomas em relação aos governos estaduais. Em Minas, diversos prefeitos mantêm alianças simultâneas com PT, PL e PSD, o que dificulta a transferência automática de apoio para um único candidato ao governo.
Ao mesmo tempo, campanhas digitais cada vez mais nacionalizadas permitem que presidenciáveis alcancem diretamente o eleitor, reduzindo parte da dependência das estruturas partidárias estaduais.
Numa eleição que deve ser definida por pouco, no entanto, cada voto conta. E Minas tem muitos deles.




