Lula tem incentivos para propor uma aliança ampla de defesa da soberania tal como ele fez em relação à democracia depois dos eventos de 8 de janeiro. E, a partir daí, tentar isolar Flávio Bolsonaro.
Nesse movimento, Lula tentará extrair declarações de apoio de chefes de poderes, líderes de partidos, associações empresariais e editoriais da imprensa. Construindo essa unidade, espera fortalecer, por tabela, sua candidatura.
A conjuntura é a roda que fornece oportunidades e limites ao poder de ação dos líderes.
Nesse caso, o evento mais importante dos últimos tempos é a definição, por parte dos EUA, das Américas como sua zona de influência com repercussões bem duras nas áreas política e econômica.
Primeira abordagem
Em um primeiro momento, apesar de fazer discurso de defesa da soberania, Lula ofereceu a Donald Trump total disposição para negociar, mas com uma condição: desde que fosse após as eleições presidenciais.
Lula posou de leão para a opinião pública e buscou atuar como raposa nos bastidores geopolíticos.
Mas o governo americano não topou: anunciou as taxações na data programada e definiu o crime organizado como facções terroristas. Trump e Marco Rubio não aceitaram os termos de Lula porque não confiam nele.
Com isso, o presidente brasileiro abandonou a roupa de negociador irresistível e sinaliza, agora, “engrossar” o debate por meio do anúncio de retaliações comerciais que ainda serão definidas.
Reciprocidade
É possível que a reciprocidade ainda não seja um ato de força, mas algo para o consumo do eleitorado. Ainda não dá para cravar.
O que se sabe é que Lula vai tentar fazer desse limão uma limonada.
Após os atos de 8 de janeiro, Lula tentou personificar a democracia. Em seus discursos, ele equivalia os ataques à Esplanada como ataques a ele mesmo. Ele tentou assumir a representação da democracia.
Agora, Lula quer fazer o mesmo com a soberania. Está explícito no seu programa de governo, com inúmeras menções ao termo, que ele vai tentar endereçar para o público que as decisões geopolíticas americanas miram nele e, assim, vai assumir o papel de garantidor da nossa independência.
É arriscado entrar nessas questões de forma populista. Mas, para um líder eleitoral, que se vê comparável apenas ao presidente Getúlio Vargas em termos de importância histórica, isso é quase irresistível também.
Isolar Flávio Bolsonaro
A defesa da soberania atrelada ao apoio a Lula serve a uma porção de interesses, a começar pela reeleição e consequente proteção de membros do STF. Por isso, faz sentido que Alexandre de Moraes tenha entrado nesse jogo, que Hugo Motta tenha se apressado a pedir voto para Lula e Alcolumbre tenha normalizado seu diálogo com o Planalto.
Se conseguir uma demonstração de unidade e isolar Flávio Bolsonaro, Lula também espera mandar uma mensagem para Trump: “para você, ainda é melhor negociar comigo, que tenho o controle e o suporte das instituições brasileiras”. Portanto, é uma mensagem para dentro e outra para fora.
Se a relação Brasil-EUA azedar mais um pouquinho, Lula pode pedir um ato da sociedade e do sistema político em defesa da soberania. O problema é saber onde está essa linha que separa os ganhos dos prejuízos, já que o risco desse tipo de ação é proporcional ao tamanho do prêmio que está em jogo.




