Trinta anos depois das primeiras concessões rodoviárias brasileiras, o setor parece ter atingido um novo estágio de maturidade. Contratos mais sofisticados, agências reguladoras mais experientes, maior diálogo entre órgãos de controle e empresas e uma agenda crescente de inovação transformaram um mercado que já não se resume à construção de estradas. A EcoRodovias é um exemplo dessa evolução. Com 12 concessões, mais de cinco mil quilômetros administrados em sete estados e R$ 18 bilhões investidos nos últimos cinco anos, a companhia construiu uma das maiores plataformas de infraestrutura do país. Em vez de perseguir crescimento a qualquer custo, hoje concentra esforços em fortalecer e expandir os ativos que já opera.
Para Marcello Guidotti, CEO da empresa, eficiência operacional e investimentos não são objetivos conflitantes. Em concessões de 30 anos, melhorar a rentabilidade exige ampliar capacidade, incorporar novas tecnologias e adaptar continuamente os ativos às transformações econômicas, sociais e ambientais. A companhia aposta justamente nessa combinação de gestão, inovação e execução de investimentos para extrair valor de seu portfólio.
A agenda ESG ocupa papel central nessa estratégia. A EcoRodovias mantém uma Agenda ESG 2030 com 24 metas distribuídas entre os eixos ambiental, social e de governança e trata a inovação como elemento transversal a todas elas. Em um contexto de eventos climáticos mais frequentes e extremos, Guidotti afirma que a gestão de riscos ambientais deixou de ser apenas uma preocupação das concessionárias. “A infraestrutura precisa se adaptar às mudanças climáticas. É uma exigência dos usuários, dos reguladores e da própria sociedade”, afirma.
Leia a seguir, um trecho de sua entrevista.
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Qual é a principal expectativa do setor de infraestrutura em relação ao próximo governo?
A principal expectativa é que a infraestrutura seja tratada como uma política de Estado. O setor exige continuidade. Houve avanços importantes ao longo de diferentes governos e seria um erro interromper esse processo. O Brasil acumulou experiência, corrigiu modelos de contrato que não deram certo e desenvolveu instrumentos relevantes, como as otimizações contratuais e o consensualismo. Também é importante preservar mecanismos de financiamento de longo prazo, ampliar fontes de recursos e manter o apoio de instituições como o BNDES.
Qual foi o principal avanço institucional dos últimos anos?
O maior avanço foi a consolidação do consensualismo. Em vez de disputas intermináveis e passivos bilionários, passou a existir maior disposição para sentar à mesa, renegociar e encontrar soluções. O movimento contou com participação do TCU, dos ministérios, das agências reguladoras e do setor privado. Hoje há uma compreensão mais madura de que contratos de concessão de 30 anos precisam ser capazes de se adaptar à realidade. Reequilíbrios e otimizações que ocorrem durante a sua vigência não são apenas favoráveis ao privado, porque em geral envolvem novas obrigações também. Usuário, poder concedente e empresa privada se beneficiam.
Qual foi o papel das agências reguladoras nesse processo?
As agências foram fundamentais. São elas que formalizam e implementam as mudanças. O amadurecimento institucional das agências, não só a ANTT, mas também as estaduais, permitiu absorver novas dinâmicas, testar soluções inovadoras e incorporar mecanismos que tornam os contratos mais eficientes. Hoje já não existem diferenças gritantes entre contratos estaduais e federais. As instituições se copiam, no melhor sentido.
O setor brasileiro de engenharia recuperou sua capacidade de inovação após os problemas enfrentados na década passada, no rastro da Lava Jato?
Sim. Quando o poder público oferece oportunidades, o mercado se reorganiza rapidamente. Empresas médias crescem, novas tecnologias são incorporadas e surgem soluções mais sofisticadas. Hoje vemos o uso intensivo de drones, BIM, equipamentos e sistemas avançados de monitoramento. A infraestrutura brasileira continua sendo um ambiente de grande inovação.
A terceira pista da Imigrantes é frequentemente apontada como um marco tecnológico. Por quê?
Porque representa uma evolução clara da engenharia aplicada à infraestrutura. A primeira pista foi construída com forte intervenção na Mata Atlântica. A segunda já utilizou soluções para reduzir impactos ambientais. A terceira foi concebida para ser praticamente toda em túneis. As tecnologias atuais permitem identificar riscos geológicos com muito mais precisão e menor custo, tornando viáveis soluções que antes seriam economicamente inviáveis.
A EcoRodovias concluiu os estudos e projetos da nova ligação entre o Planalto e a Baixada Santista no final de 2025. Em março deste ano, o empreendimento recebeu licença ambiental prévia, um marco importante para sua evolução. O projeto prevê uma solução de engenharia que minimiza a interferência sobre a Mata Atlântica e ilustra como a infraestrutura brasileira passou a incorporar critérios ambientais muito mais rigorosos do que aqueles adotados nas gerações anteriores de concessões.




