Buscar
ECONOMIA

Inovação e rentabilidade andam juntas em concessões de estradas

À frente da EcoRodovias, Marcello Guidotti analisa o novo estágio de maturidade atingido pelo setor de infraestrutura no Brasil

Há 107 dias • por Carlos Graieb
Inovação e rentabilidade andam juntas em concessões de estradas
Marcello Guidotti, CEO da EcoRodovias. Foto: Ivan Pacheco/Grupo VOTO
Ouça este conteúdo Inovação e rentabilidade andam juntas em concessões de estradas
5:58

Trinta anos depois das primeiras concessões ro­doviárias brasileiras, o setor parece ter atingido um novo estágio de maturidade. Contratos mais sofisti­cados, agências reguladoras mais experientes, maior diálogo entre órgãos de controle e empresas e uma agenda crescente de inovação transformaram um mercado que já não se resume à construção de es­tradas. A EcoRodovias é um exemplo dessa evolução. Com 12 concessões, mais de cinco mil quilômetros administrados em sete estados e R$ 18 bilhões investidos nos últimos cinco anos, a companhia construiu uma das maiores plataformas de infraestrutura do país. Em vez de perseguir crescimento a qualquer custo, hoje concentra esforços em fortalecer e ex­pandir os ativos que já opera.

Para Marcello Guidotti, CEO da empresa, eficiên­cia operacional e investimentos não são objetivos conflitantes. Em concessões de 30 anos, melhorar a rentabilidade exige ampliar capacidade, incorporar novas tecnologias e adaptar continuamente os ativos às transformações econômicas, sociais e ambientais. A companhia aposta justamente nessa combinação de gestão, inovação e execução de investimentos para extrair valor de seu portfólio.

A agenda ESG ocupa papel central nessa estraté­gia. A EcoRodovias mantém uma Agenda ESG 2030 com 24 metas distribuídas entre os eixos ambien­tal, social e de governança e trata a inovação como elemento transversal a todas elas. Em um contexto de eventos climáticos mais frequentes e extremos, Guidotti afirma que a gestão de riscos ambientais deixou de ser apenas uma preocupação das conces­sionárias. “A infraestrutura precisa se adaptar às mu­danças climáticas. É uma exigência dos usuários, dos reguladores e da própria sociedade”, afirma.

Leia a seguir, um trecho de sua entrevista.

***

Qual é a principal expectativa do setor de infraestrutura em rela­ção ao próximo governo?

A principal expectativa é que a infraestrutura seja tratada como uma política de Estado. O setor exige continuidade. Houve avanços im­portantes ao longo de diferentes go­vernos e seria um erro interromper esse processo. O Brasil acumulou experiência, corrigiu modelos de contrato que não deram certo e de­senvolveu instrumentos relevantes, como as otimizações contratuais e o consensualismo. Também é impor­tante preservar mecanismos de fi­nanciamento de longo prazo, am­pliar fontes de recursos e manter o apoio de instituições como o BNDES.

Qual foi o principal avanço institu­cional dos últimos anos?

O maior avanço foi a consolida­ção do consensualismo. Em vez de disputas intermináveis e passivos bilionários, passou a existir maior disposição para sentar à mesa, rene­gociar e encontrar soluções. O movi­mento contou com participação do TCU, dos ministérios, das agências reguladoras e do setor privado. Hoje há uma compreensão mais madura de que contratos de concessão de 30 anos precisam ser capazes de se adaptar à realidade. Reequilíbrios e otimizações que ocorrem durante a sua vigência não são apenas favorá­veis ao privado, porque em geral en­volvem novas obrigações também. Usuário, poder concedente e em­presa privada se beneficiam.

Qual foi o papel das agências re­guladoras nesse processo?

As agências foram fundamen­tais. São elas que formalizam e im­plementam as mudanças. O amadu­recimento institucional das agências, não só a ANTT, mas também as esta­duais, permitiu absorver novas dinâ­micas, testar soluções inovadoras e incorporar mecanismos que tornam os contratos mais eficientes. Hoje já não existem diferenças gritantes en­tre contratos estaduais e federais. As instituições se copiam, no melhor sentido.

O setor brasileiro de engenharia recuperou sua capacidade de ino­vação após os problemas enfren­tados na década passada, no ras­tro da Lava Jato?

Sim. Quando o poder público oferece oportunidades, o mercado se reorganiza rapidamente. Empre­sas médias crescem, novas tecnolo­gias são incorporadas e surgem so­luções mais sofisticadas. Hoje vemos o uso intensivo de drones, BIM, equi­pamentos e sistemas avançados de monitoramento. A infraestrutura brasileira continua sendo um am­biente de grande inovação.

A terceira pista da Imigrantes é frequentemente apontada como um marco tecnológico. Por quê?

Porque representa uma evolu­ção clara da engenharia aplicada à infraestrutura. A primeira pista foi construída com forte intervenção na Mata Atlântica. A segunda já utilizou soluções para reduzir impactos am­bientais. A terceira foi concebida para ser praticamente toda em tú­neis. As tecnologias atuais permitem identificar riscos geológicos com muito mais precisão e menor custo, tornando viáveis soluções que antes seriam economicamente inviáveis.

A EcoRodovias concluiu os estu­dos e projetos da nova ligação entre o Planalto e a Baixada Santista no fi­nal de 2025. Em março deste ano, o empreendimento recebeu licença ambiental prévia, um marco impor­tante para sua evolução. O projeto prevê uma solução de engenharia que minimiza a interferência sobre a Mata Atlântica e ilustra como a infra­estrutura brasileira passou a incorporar critérios ambientais muito mais rigorosos do que aqueles ado­tados nas gerações anteriores de concessões.

Leia a íntegra da reportagem e da edição 169 da revista V.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER