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ECONOMIA

Governo se vê forçado a falar em ajuste fiscal no período de eleições

Perspectiva de crise obriga equipe econômica a tratar do tema e assumir grande risco político

Há 55 dias • por Leonardo Barreto
Governo se vê forçado a falar em ajuste fiscal no período de eleições
O ministro da Fazenda Dário Durigan. Foto: Washington Costa/MF
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Apurações de bastidores dão conta de que interlocutores da área econômica estão muito preocupados com o futuro da reeleição. A leitura deles é que o noticiário econômico está levando a sociedade a concluir que está na iminência de uma crise.

Na semana passada, o Itaú reconheceu que pode haver recessão em 2027. A taxa futura de juros não tem cedido em relação aos movimentos do Banco Central e recuperação judicial das Casas Bahia tem potencial para “explicar” o potencial destrutivo da crise de crédito para as pessoas. Não por acaso, o primeiro programa de TV de Flávio Bolsonaro foi gravado em frente a uma loja que teve suas atividades encerradas.

Sensação de risco

Pesquisas eleitorais mostram que a “sensação” de risco econômico chegou às pessoas. Em um relatório publicado há duas semanas, o Instituto Nexus fez uma bateria de perguntas pedindo às pessoas que comparassem a situação atual àquela vivida durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para 59%, os preços nos supermercados eram mais acessíveis no governo anterior, contra 31% que acham que os produtos estão mais baratos agora. Para 48%, o custo de vida era melhor na gestão anterior e 41% entendem que a situação é mais satisfatória agora.

O governo faz o que pode para manter as expectativas econômicas no positivo. A grande repercussão da descoberta de uma reserva de petróleo “maior do que o pré-sal” faz parte desse esforço. A ideia embutida nesse (re)anúncio meio forçado é afirmar que há anos de prosperidade reservados à frente apesar das dificuldades sentidas.

Busca de credibilidade

É dentro desse contexto que a fala de Gabriel Galípolo — de que o Brasil deve deixar o modelo de crescimento baseado em consumo para trás e adotar outro fundado em produtividade — deve ser interpretada. Paralelamente, soube-se, via vazamentos oriundos da própria assessoria do Ministério da Fazenda, que economistas liberais como Pedro Malan e Armínio Fraga estariam sendo procurados por Dario Durigan para conversar, e o noticiário sobre estudos de ajustes ortodoxos por parte da equipe econômica se multiplicou.

Mas há um risco eleitoral embutido nesse movimento de recuperação de credibilidade junto ao mercado.

Se vazar que Lula, por exemplo, aceita uma política de reajuste do salário-mínimo menor ou desvinculada de outras despesas, e isso ganha o noticiário eleitoral, ele vai colher um resultado bem diferente daquele planejado, tendo possivelmente que se justificar com os eleitores que, em regra, sempre esperam mais, e não menos.

Ambientes fechados

Por isso, a equipe econômica só fala nos bastidores, endereça essas mensagens em ambientes fechados e com uma autoria genérica. Se a notícia chegar ao grande público, Lula sempre terá condições de negá-la.

O problema central para o sucesso dessa estratégia, no entanto, é que o governo sofre de crise de reputação. Armínio Fraga, por exemplo, emprestou a sua para o governo em 2022 e sofre por isso até hoje, considerando que a direção tomada foi diferente da que ele indicou.

Assim como em 2014, o governo esperava que a sensação de bem-estar e segurança econômica pudesse ser mantida até depois das eleições. Esse cenário, no entanto, parece cada vez mais improvável e tem levado a equipe econômica a assumir o risco de falar de ajustes antes das eleições. Essa é a medida do nível de alerta que existe no Planalto em relação ao seu futuro.

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