É difícil o xadrez jogado por Flávio Bolsonaro, hoje, nos EUA. Especialmente porque ele parte de uma premissa difícil de ser assumida pela própria administração de Donald Trump, isto é, a de que as tarifas são um instrumento de pressão para promover uma mudança no governo brasileiro.
Dessa forma, ele busca sincronizar a decisão dos EUA ao cronograma eleitoral brasileiro. Seu argumento foi o de que aplicar tarifas pesadas ao Brasil neste momento seria dar um presente eleitoral à esquerda, o que permitiria ao presidente Lula construir uma narrativa de “vítima de agressão externa”.
Vendendo o futuro
Internamente, segundo essa lógica, isso unificaria a base governista sob um forte discurso nacionalista e antiamericano, convertendo o prejuízo econômico em ativo político para a reeleição. Seu pedido, ao classificar o atual período como o “pior momento possível”, devido à proximidade das eleições de outubro, é pelo adiamento ou cancelamento da decisão sobre as tarifas até depois das eleições.
Ao se apresentar como pré-candidato, Flávio buscou “vender o futuro”, oferecendo às autoridades dos EUA uma alternativa: trocar as tarifas agora por um profundo alinhamento entre Brasil e EUA a partir de janeiro de 2027, caso ele seja eleito.
Talvez o objetivo de Flávio Bolsonaro seja mostrar influência sobre a administração Trump. Mas, agindo dessa forma, ele assume três riscos importantes:
Três riscos
Primeiro, coloca seu “parceiro” contra a parede, expondo que toda a argumentação construída por meses de trabalho pelas autoridades de comércio não seria nada mais do que uma forma de tirar Lula do poder. Mesmo na eventualidade de isso ser verdade, dificilmente um governo assumiria isso claramente.
Além disso, se Flávio conseguir a suspensão — ou se ela vier por outras razões —, dará escancaradamente a Lula o que o senador reconhece que ele quer: a alcunha de perseguido.
Segundo, se Flávio não conseguir a suspensão, terá sua influência junto a setores de Donald Trump questionada.
Terceiro, ao se comprometer a se alinhar intimamente com os EUA após uma eleição, Flávio pode estar comprando briga com vários setores da economia brasileira que são protegidos por tarifas contra concorrentes americanos. Assim, ele pode estar criando atrito com empresários que poderiam ser aliados.
Reposicionamento de imagem
Com tudo isso, vale o risco?
O presidente Lula conseguiu, com sucesso, acusar a família Bolsonaro de atuar contra o próprio país no exterior no caso das tarifas. Isso, em função da narrativa original desenvolvida por Eduardo Bolsonaro, que sugeria que elas seriam importantes para ajudar a resgatar a democracia no país.
Um reposicionamento de imagem era necessário, tanto de Flávio quanto de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, que esteve com ele na sessão do Congresso. O pedido de suspensão, a defesa do Pix e a acusação de que o governo brasileiro não tinha representantes oficiais na audiência deveriam servir a esse propósito.
No entanto, é de se perguntar se a linha desenvolvida foi correta em função dos riscos levantados, porque esse não é um jogo fácil nem para a diplomacia bem treinada.




