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POLíTICA

Campanha começa com disputa por segurança e soberania entre Lula e Flávio Bolsonaro

Líderes abrem campanha em redutos históricos; segurança também pauta Caiado, Zema e Renan

Há 63 dias • por Da Redação
Campanha começa com disputa por segurança e soberania entre Lula e Flávio Bolsonaro
O vice Alafredo Gaspar e Flávio Bolsonaro no ato inaugural da campanha presidencial de 2026. Foto: Charles Vieira/Campanha de Flávio Bolsonaro
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8:35

A campanha presidencial de 2026 começou oficialmente neste domingo, 16, com os principais candidatos nas ruas e uma indicação bastante clara dos temas que devem dominar as próximas semanas. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que lideram as pesquisas de intenção de voto, escolheram lugares carregados de simbolismo para suas primeiras agendas: o presidente voltou ao ABC paulista, berço de sua trajetória sindical, enquanto o senador foi a Copacabana, cenário recorrente das manifestações organizadas pelo bolsonarismo nos últimos anos.

Embora tenham apresentado respostas diferentes, os dois deram espaço privilegiado à segurança pública e à soberania nacional. Lula procurou reforçar os vínculos com mulheres e evangélicos e recuperar a imagem de líder popular construída no movimento sindical. Flávio fez numerosas referências ao pai, Jair Bolsonaro, atacou o governo petista e procurou transformar a insegurança cotidiana em contraponto ao discurso de soberania adotado pelo presidente.

A largada acontece em cenário de disputa apertada. Pesquisa Quaest divulgada na sexta, 14, às vésperas do início oficial da campanha mostrou Lula com 43% e Flávio com 40% numa eventual disputa de segundo turno.

Lula volta ao ABC

Lula escolheu o Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, para iniciar a campanha em busca de um quarto mandato. Foi ali que se projetou nacionalmente como líder dos metalúrgicos no final dos anos 1970, e o evento foi construído deliberadamente como uma viagem às origens. Imagens das greves, antigos companheiros sindicalistas e referências à repressão durante a ditadura serviram de pano de fundo para um discurso no qual o presidente voltou a apresentar-se como representante dos trabalhadores.

Em certo momento, Lula definiu-se como “peão” e ressaltou sua formação escolar limitada para reforçar a identidade popular que sustenta sua carreira política. A escolha de São Bernardo também teve significado eleitoral: apesar de ser o berço do PT, a legenda perdeu força na região nos últimos anos.

Mas a campanha que saiu às ruas neste domingo procurou ir além do eleitorado petista tradicional. Mulheres e evangélicos receberam atenção especial. Janja discursou, homenageou Marisa Letícia e cantou uma música gospel ao lado do pastor Kleber Lucas. Lula fez várias referências a Deus ao longo de sua fala. O movimento tenta reduzir dificuldades do PT entre cristãos e, ao mesmo tempo, reforçar sua posição entre as mulheres, maioria do eleitorado brasileiro.

Lula voltou a apresentar a soberania como eixo da campanha. O presidente mencionou o interesse de Estados Unidos e China nos minerais críticos brasileiros e defendeu que o país não se limite à exportação de matéria-prima, mas use recursos naturais estratégicos para desenvolver cadeias industriais dentro do Brasil, com produção de chips, baterias e outros bens de maior valor agregado.

A segurança pública ocupou espaço inédito para uma largada de campanha petista. Lula retomou a promessa não cumprida de criar um Ministério da Segurança Pública e defendeu maior participação federal no combate às facções criminosas e às milícias. Seu discurso procurou diferenciar a proposta petista de uma política baseada apenas na repressão policial em áreas pobres. A ideia, segundo disse, é atingir o dinheiro das facções e os chefes que vivem fora das comunidades dominadas pelo crime.

Houve pouca novidade programática em outras áreas. O presidente fez um balanço de suas administrações, citando emprego, renda, expansão do ensino superior e retomada da indústria.

Flávio aposta no legado do pai

Flávio Bolsonaro iniciou sua campanha na Praia de Copacabana, um dos principais palcos das manifestações de apoio ao pai. Ele tratou de deixar claro que sua candidatura dá continuidade ao movimento político liderado por Jair Bolsonaro.

Frases do ex-presidente foram reproduzidas durante o ato, o público foi convocado a gritar “Volta, Bolsonaro” e Flávio utilizou o slogan “O Brasil vai vencer”. O senador reconheceu abertamente a dificuldade de suceder ao pai, referência não somente política, mas também emocional da candidatura.

O principal tema abordado foi a segurança pública. O candidato prometeu reduzir a maioridade penal e classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas. Foi também pela segurança que ele tentou neutralizar um dos principais argumentos da campanha de Lula. Enquanto o presidente fala de soberania em relação aos Estados Unidos, à China e aos recursos naturais brasileiros, Flávio Bolsonaro procurou redefinir o conceito em termos domésticos. Disse que não existe soberania quando o cidadão não pode manter controle sobre o próprio celular, carro, casa ou bairro por causa da ação de criminosos. Segundo ele, o governo “briga com países que estão a 10 mil quilômetros”, mas não com traficantes, assaltantes e assassinos.

Na economia, Flávio apresentou uma distinção igualmente clara em relação ao presidente. Classificou o governo como gastador, associou o aumento das despesas públicas à inflação, aos juros e ao endividamento das famílias e prometeu controlar gastos e reduzir impostos.

O senador também sinalizou que pretende manter na campanha os temas institucionais e culturais que mobilizam o eleitorado bolsonarista. Disse que, caso seja eleito, poderá indicar quatro ministros ao Supremo Tribunal Federal e que escolherá nomes conservadores, contrários ao aborto e às drogas e que, em suas palavras, não persigam adversários políticos.

Caiado, Zema e Renan tentam abrir espaço

Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) também aproveitaram o primeiro dia para definir suas marcas. Os três deram destaque à segurança pública, sinal de que o tema deverá atravessar praticamente toda a campanha presidencial.

Caiado voltou a Goiás, estado que governou antes de entrar na corrida pelo Planalto, e procurou apresentar sua experiência administrativa — particularmente os resultados obtidos na segurança — como credencial nacional. Em uma carreata pelo entorno de Brasília, ouviu referências à redução da criminalidade durante seu governo e afirmou que pretende “devolver o país aos brasileiros de bem”. Também procurou colocar-se fora da polarização entre Lula e Flávio e apresentou a integridade como uma de suas marcas, afirmando ser o candidato de “mãos limpas”.

Zema fez movimento semelhante em Minas Gerais. Começou sua campanha em Montes Claros, onde também inaugurou disputas estaduais anteriores, e apresentou uma proposta sintetizada em “três choques”: um ético e moral, contra a corrupção; um fiscal, contra o que chama de “gastança” do governo Lula; e outro contra facções e organizações criminosas. Defendeu ainda a redução da maioridade penal e a construção de “superpresídios”.

Renan Santos iniciou a campanha em São Paulo com um discurso de confronto simultâneo com Lula e Flávio. Usou como referência o presidente salvadorenho Nayib Bukele, defendeu operações policiais duras contra o crime organizado e atacou os dois principais polos da eleição.

A primeira fotografia da campanha, portanto, mostra uma eleição ainda fortemente organizada em torno de Lula e do bolsonarismo, mas com uma diferença importante em relação a 2022. Segurança pública, ajuste fiscal, soberania e política industrial já aparecem como terrenos de disputa concreta entre as candidaturas. Os próximos movimentos mostrarão se esses temas conseguirão deslocar parte da campanha da simples rejeição ao adversário para uma comparação mais direta entre projetos de governo.

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