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POLíTICA

Divulgação de relatório sobre Vorcaro pressiona Moraes e abre crise no STF

Decisão de tornar pública a investigação cria ambiente conflagrado na corte, que deve analisar o tema em sessão plenária

Há 46 dias • por Da Redação
Divulgação de relatório sobre Vorcaro pressiona Moraes e abre crise no STF
Alexandre de Moraes. Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF
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6:08

A decisão do ministro André Mendonça de retirar o sigilo de relatório da Polícia Federal sobre o celular de Daniel Vorcaro surpreendeu o Supremo Tribunal Federal e expôs novas e robustas evidências de uma relação próxima, continuada e institucionalmente sensível entre o ex-dono do Banco Master e o ministro Alexandre de Moraes. Os contatos coexistiram com contratos milionários firmados entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do magistrado.

O relatório de 218 páginas foi produzido pela PF a partir dos dados extraídos do celular apreendido com Vorcaro na Operação Compliance Zero. O documento não conclui que Moraes tenha cometido crime ou atendido aos pedidos do banqueiro. Reconstrói, porém, uma relação que se estendeu por aproximadamente dois anos e avançou pelos terrenos pessoal, empresarial e institucional.

Uma das principais descobertas diz respeito às notas que Vorcaro escrevia no celular, convertia em imagens e encaminhava pelo WhatsApp. Por meio da análise dos registros do aparelho, a PF associou 52 dessas notas ao número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Parte das respostas não pôde ser recuperada porque as conversas adotavam recursos de visualização única e exclusão automática de mensagens.

Nos momentos mais críticos para o Master, Vorcaro procurou Moraes para tratar da atuação das autoridades. Às vésperas de ser preso, perguntou se deveria deixar o país e se seria possível reverter ou bloquear as medidas em andamento. Também pediu que Moraes tentasse obter uma reunião com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e perguntou se o quadro poderia ser revertido com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, ou com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

O relatório também trouxe novos elementos sobre o contrato firmado em janeiro de 2024 entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes. O documento previa 36 pagamentos líquidos de R$ 3 milhões, totalizando R$ 108 milhões. Metadados das minutas indicam que a última modificação de duas versões foi realizada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O registro técnico, isoladamente, não permite estabelecer quem estava fisicamente diante do computador nem quais alterações foram efetuadas.

Mensagens internas mostram que Vorcaro tratava o repasse ao escritório como o pagamento “mais importante” do banco e se preocupava com qualquer atraso. Em uma das conversas, autorizou que fosse realizado “sem nota” e “do jeito que for”. A PF encontrou comprovante de uma transferência de R$ 3,42 milhões, mas não concluiu que tenha ocorrido irregularidade fiscal.

Um segundo negócio, negociado em 2025, previa uma operação estimada em R$ 50 milhões e envolvia a utilização de um avião e um helicóptero. A documentação localizada mostra minutas, alternativas de pagamento e tratativas para mudar a empresa participante, mas não permite concluir que o acordo tenha sido consumado nos termos inicialmente propostos. O relatório registra ainda que Vorcaro autorizou o avanço de pedidos de cartões de crédito para dois filhos de Moraes, com limite mencionado nas mensagens como “300” para cada um — trata-se, evidentemente, de um limite de R$ 300 mil

A divulgação desencadeou uma conflagração no STF. Segundo o site Metrópoles, Moraes procurou Mendonça em seu gabinete, acusou o colega de direcionar a investigação e discutiu em tom ríspido. O relato de que os dois quase chegaram a um confronto físico é atribuído a fontes reservadas e não foi confirmado publicamente pelos ministros.

A controvérsia jurídica está em definir se Mendonça apenas determinou a análise de provas regularmente apreendidas ou se abriu, sem autorização do plenário, uma investigação direcionada contra outro ministro do Supremo. Segundo reportagem do UOL, o diretor-geral da PF Andrei Rodrigues considerou as ordens ilegais, capazes de configurar abuso de autoridade e de produzir nulidades.

A própria PF tomou o cuidado de registrar no relatório que não realizou diligências investigativas contra magistrados ou integrantes do Ministério Público. O trabalho, segundo a corporação, restringiu-se à identificação e à organização dos elementos já existentes no celular de Vorcaro.

Mendonça reagiu propondo que o relatório seja analisado pelo plenário do STF, em sessão presencial, pública e transparente. O movimento transfere ao colegiado a responsabilidade de decidir tanto sobre a validade do procedimento quanto sobre o destino dos elementos relacionados a Moraes. A data deverá ser definida pelo presidente da Corte, Edson Fachin.

O episódio também entrou imediatamente na campanha presidencial. Flávio Bolsonaro afirmou que Moraes não tem mais condições de permanecer no Supremo. Romeu Zema defendeu o impeachment e a prisão do ministro. Renan Santos anunciou que apresentará pedido de impeachment contra Moraes e Dias Toffoli. Ronaldo Caiado adotou formulação mais cautelosa e declarou que o magistrado precisa responder por seus atos.

O relatório policial não fecha a equação jurídica, mas amplia substancialmente a dimensão do caso: além dos contratos do escritório de Viviane, passa a estar sob escrutínio a extensão da relação direta entre Vorcaro e Moraes e a expectativa, manifestada pelo banqueiro, de que o ministro pudesse ajudá-lo diante das instituições responsáveis por fiscalizar e investigar o Banco Master.

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