O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu reconstruir a relação com o comando do Congresso a poucas semanas das eleições.
Em almoço de duas horas e meia nesta quarta-feira, 26, no Palácio da Alvorada, Lula recebeu os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, e saiu do encontro anunciando o avanço de uma série de pautas de interesse do governo.
Algumas delas têm potencial para produzir dividendos eleitorais imediatos, embora ainda não esteja claro se chegarão de fato à aprovação antes do primeiro turno.
Em troca, Lula ofereceu apoio a Motta e Alcolumbre nas eleições que os dois enfrentarão, em fevereiro de 2027, para permanecer no comando das respectivas Casas.
A movimentação foi suficientemente importante para provocar reação imediata da oposição. Aliados de Flávio Bolsonaro articulam uma reunião com Motta e Alcolumbre para tentar impedir que o Congresso ofereça a Lula, na reta final da campanha, uma sequência de vitórias legislativas. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, afirmou que pretende conversar com os dois presidentes na próxima semana.
Entre 31 de agosto e 4 de setembro, Câmara e Senado realizarão o último esforço concentrado antes das eleições. Com deputados e senadores envolvidos nas campanhas nos Estados, será a principal janela para votações relevantes antes de outubro.
O que deve andar — e quanto
A medida com caminho mais definido é a MP que elimina a chamada taxa das blusinhas, o imposto federal de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares. A comissão mista deverá ser instalada em 1º de setembro, presidida pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), e o texto precisa passar pelo Congresso até 8 de setembro para não perder a validade. Alcolumbre afirmou que a MP “não vai caducar”.
Para o Planalto, trata-se de uma pauta especialmente sensível. A cobrança foi criada em 2024 com apoio do Planalto, sob o argumento de reduzir a assimetria entre empresas brasileiras e plataformas de e-commerce estrangeiras. Acabou rendendo ao então ministro da Fazenda Fernando Haddad o apelido de “Taxad” e desgastou o governo entre consumidores de menor renda. Em pesquisas, tem sido mencionada como um dos maiores erros de Lula.
Também devem avançar outras duas propostas de caráter econômico. O Senado promete votar o Redata, regime especial de tributação criado para estimular investimentos em data centers, e o marco legal dos minerais críticos, que abrange insumos como lítio, cobalto, nióbio, grafite e terras raras.
Mais incerto é o destino das duas PECs com maior potencial eleitoral: a que acaba com a escala de trabalho 6×1 e a da Segurança Pública. Alcolumbre havia mantido os dois textos parados durante o período de afastamento do Planalto, mas encaminhou as propostas à Comissão de Constituição e Justiça na semana passada.
Na 6×1, o relator Omar Aziz (PSD-AM) deve apresentar parecer na próxima quarta-feira, 2. Na PEC da Segurança, o relatório ficará a cargo de Rogério Carvalho (PT-SE). A expectativa dos dois é preservar os textos aprovados na Câmara, evitando uma nova rodada de votação pelos deputados. O ponto decisivo, entretanto, é que não existe compromisso de levar nenhuma das duas PECs ao plenário antes das eleições. O acordo garante movimento, não necessariamente aprovação.
Eleições de 2026 — e de 2027
A recomposição com o Congresso atende a uma necessidade imediata de Lula. Sem resultados legislativos antes de outubro, o presidente perderia a oportunidade de incorporar à campanha medidas de forte apelo social.
O fim da 6×1, especialmente, é uma bandeira de Lula. A PEC da Segurança interessa num momento em que o combate ao crime organizado ganhou centralidade na disputa presidencial.
Alcolumbre e Motta também prometeram trabalhar pela reeleição do presidente. Em contrapartida, Lula garantiu apoio à recondução do primeiro à presidência do Senado e do segundo ao comando da Câmara, em fevereiro de 2027.
Como está no meio de seu mandato de senador, Alcolumbre não disputa uma vaga em outubro e pode concentrar esforços na eleição interna de fevereiro. Uma vitória de Lula na campanha presidencial facilitará a formação de uma maioria em torno de sua permanência no cargo. Já uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro fortaleceria Rogério Marinho (PL-RN), que pretende disputar a chefia do Senado.
Motta também tem interesses próprios. O presidente da Câmara espera apoio do PT à candidatura de seu pai, Nabor Wanderley, ao Senado pela Paraíba.
A oposição reage
Os aliados de Flávio Bolsonaro sentiram o golpe. Pediram encontro com Alcolumbre e Motta para tentar reduzir os dividendos eleitorais que o governo pretende obter com votações no Congresso.
Até agora, a estratégia do grupo tem sido evitar uma oposição frontal a medidas populares e questionar principalmente a pressa em votá-las durante a campanha. No caso da 6×1, aliados de Flávio apresentaram emendas para modificar a proposta e ampliar o espaço para soluções negociadas por convenção coletiva.
Na PEC da Segurança, também há tentativas de alterar o desenho aprovado pela Câmara. A oposição aposta ainda na apresentação de destaques durante as votações para modificar trechos dos textos.
Lula conseguiu tirar sua agenda da gaveta e transformar uma relação que estava rompida há poucos meses em cooperação aberta. Mas Alcolumbre e Motta ainda preservam uma margem de manobra importante, uma vez que permitir que uma proposta avance não equivale a garantir que ela seja votada. A disposição de ambos em conversar com a oposição e acelerar ou retardar o ritmo de tramitação de projetos mostrará até onde vai a nova aliança entre o Planalto e o comando do Congresso.




