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ECONOMIA

Galípolo faz diagnóstico (cuidadoso) sobre endividamento do Brasil

Presidente do BC diz que o crédito utilizado pelos brasileiros é o que cobra juros mais altos e piora endividamento

Há 51 dias • por Leonardo Barreto
Galípolo faz diagnóstico (cuidadoso) sobre endividamento do Brasil
Gabriel Galípolo. Foto: Divulgação/Febra ban Tech
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7:10

Em sua apresentação no Febraban Tech 2026 realizada nesta segunda, 24, em São Paulo, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que “o crédito está crescendo, mas o endividamento das famílias avança no mesmo ritmo”.

Ele resumiu o dilema em uma frase: “não dá para ficar contente porque o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu.”

Seu diagnóstico parte de um dado paradoxal: o endividamento continua subindo, mesmo com a melhora do mercado de trabalho. Em junho de 2026, a taxa de desemprego caiu para 5,4% — o menor nível para o período — e a renda disponível das famílias atingiu o recorde de R$ 822 bilhões. Apesar disso, as dívidas não pararam de crescer.

Para ele, a explicação não está na renda, mas no tipo de crédito que está sendo contratado.

Dois tipos de crédito

Galípolo fez a distinção de que nem todo endividamento é igual, separando-o em dois tipos:

  1. Crédito que gera ativo: financiamento imobiliário, por exemplo. “Comprar uma casa gera um ativo para a vida da pessoa”.
  2. Crédito que não gera ativo: cartão de crédito, crédito pessoal não consignado, consignado privado. São dívidas usadas para despesas recorrentes e consumo, sem lastro e com juros elevados.

O problema, segundo ele, está no segundo grupo.

Números apresentados: Brasileiros com cartão de crédito: 101 milhões; Usuários com dívida no cartão com juros: 52,8 milhões; Taxa média do rotativo (jan/2026): 424,5% ao ano; Clientes no rotativo: 40 milhões, com inadimplência de 63,5%; Clientes no parcelado com juros: 37 milhões, com inadimplência de 13%.

O alerta de Galípolo é que as pessoas estão usando o crédito emergencial — que deveria ser acionado apenas em situações pontuais — como parte da renda disponível. “As pessoas tomam, sim, crédito emergencial como renda disponível, é o crédito mais caro que deveria ser utilizado só em condições emergenciais.”

Macroeconomia

Galípolo também ofereceu uma explicação macroeconômica para o fenômeno. Ele enumerou quatro choques sucessivos que elevaram o nível de preços nos últimos anos: a pandemia de Covid, a guerra na Ucrânia, o tarifaço dos Estados Unidos e o conflito no Oriente Médio .

O efeito prático, segundo ele, é que o nível geral de preços subiu quatro degraus. Segundo ele, mesmo que a inflação esteja controlada, os preços não voltaram ao patamar anterior.

Essa elevação de preços pressionou o orçamento das famílias, que buscaram no crédito uma forma de complementar a renda — o que explica, em parte, a expansão do número de cartões e do endividamento .

Em março de 2026, Galípolo já havia abordado o tema com mais profundidade, ao comentar a eficácia da medida que limita a dívida do rotativo a 100% do valor original — o chamado “muro inglês”. Questionado se a norma, em vigor desde janeiro de 2024, não havia se mostrado ineficaz, ele foi cauteloso: o “muro inglês cumpriu seu papel”, mas a discussão precisa ir além.

A agenda de Galípolo

Com essa pergunta, Galípolo expôs a tensão central da regulação do crédito considerando que limitar preços pode limitar oferta. E a restrição de oferta, por sua vez, pode jogar os consumidores de volta para o mercado informal ou para linhas ainda mais caras.

A partir desse diagnóstico, é possível extrair a agenda que Galípolo delineou para o BC nos próximos anos. Ela se concentra em facilitar o acesso a linhas de crédito com garantia, que tendem a ter juros mais baixos.

Os pilares dessa agenda seriam o (i) aumento da colateralização do crédito, ou seja, tornar mais simples o uso de bens e ativos como garantia em operações de crédito; (ii) criar uma para o DREX e da tokenização no qual a versão digital do real seria uma “infraestrutura de contratos inteligentes e tokenização” que poderia viabilizar novos modelos de garantia; (iii) alternativas ao financiamento imobiliário diante da escassez de recursos da poupança, que historicamente financia o mercado imobiliário; e o Pix como ferramenta de garantia para permitir usar fluxos futuros de pagamento como colateral — é uma das inovações citadas.

É possível extrair da sua algumas diretrizes que podem orientar a política de crédito nos próximos anos — independentemente de quem ocupe o Planalto:

  1. Crédito com garantia como prioridade: a agenda do BC está claramente voltada para estimular linhas que ofereçam segurança ao credor e juros mais baixos ao tomador .
  2. O rotativo não é visto como solução, mas como sintoma: Galípolo reconhece que o problema não se resolve com tabelamento — mas também não se resolve com a manutenção do status quo. A saída está em oferecer alternativas .
  3. A inovação tecnológica é um meio, não um fim: Pix, DREX e tokenização são ferramentas para viabilizar crédito mais barato e mais seguro. O desafio é transformar inovação em acesso real para a população .
  4. Há um problema estrutural que vai além da política monetária: Galípolo enfatizou que a discussão sobre o crédito precisa ser “de ordem estrutural” . Isso significa que não se resolve com a Selic — exige mudanças no desenho do sistema financeiro.

Discurso cuidadoso

Galípolo tomou cuidado para não incluir na sua análise crítica à política fiscal ou ao governo. Por exemplo, os estímulos dados pelo governo ficaram de fora dos fatores inflacionários e de endividamento porque ele sabe que pisa em ovos no tema, especialmente em um momento eleitoral.

Sua fala não pode ser considerada, portanto, uma análise ampla do problema do endividamento. Mas mostra que ele está buscando, dentro de uma experiência nova que o BC vem experimentando a partir do Pix, consolidar a autoridade monetária também como fonte de produtos financeiros, além do exercício do papel regulatório clássico.

Uma agenda mais completa – e, nesse sentido, Galípolo mostra entender os seus limites – terá que esperar pela nova equipe econômica que será definida a partir do resultado das eleições.

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