Buscar
POLíTICA

Púlpitos vazios de Lula e Flávio podem afetar votação?

Pesquisa do Estadão procurou avaliar impacto da ausência dos líderes de intenção de voto no primeiro debate presidencial

Há 53 dias • por Da Redação
Púlpitos vazios de Lula e Flávio podem afetar votação?
Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury no primeiro debate presidencial da temporada. Púlpitos dos candidatos ausentes ficaram vazios. Foto: Reprodução/YouTube
Ouça este conteúdo Púlpitos vazios de Lula e Flávio podem afetar votação?
8:53

O primeiro debate presidencial da campanha de 2026 não contou com os dois candidatos que lideram as pesquisas. Ainda assim, tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Flávio Bolsonaro saíram da noite de domingo, 23, com razões para prestar atenção ao que aconteceu na Band.

Uma pesquisa qualitativa realizada pelo Instituto Travessia para o Estadão mostrou que, entre os eleitores acompanhados durante o programa, a base de Lula permaneceu fiel, enquanto apoiadores de Flávio se mostraram mais dispostos a considerar alternativas. Ao mesmo tempo, um levantamento da consultoria Bites sobre a repercussão digital indica que a estratégia do presidente de evitar o debate e conceder uma entrevista simultânea à Record não conseguiu afastar a atenção das redes do caso envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

São duas medições de natureza muito diferente — uma observa reações de um pequeno grupo de eleitores; a outra acompanha o volume e o teor das conversas na internet —, mas que ajudam a identificar os ganhos e os riscos produzidos pelo primeiro confronto da campanha.

Eleitores x atenção

O estudo do Instituto Travessia reuniu 12 eleitores de São Paulo para acompanhar o debate em tempo real. A amostra não tem representatividade estatística e não equivale a uma pesquisa de intenção de voto. O objetivo foi observar reações e eventuais mudanças de percepção durante o programa.

Nesse grupo, Ronaldo Caiado foi o candidato mais bem avaliado. O ex-governador de Goiás recebeu quase 60 avaliações positivas e apenas duas negativas. Foi percebido como experiente, técnico e equilibrado e teve desempenho especialmente forte entre as mulheres. Sua proposta de endurecer o combate à violência contra a mulher produziu o único momento de aprovação unânime entre os participantes.

Mais importante foi sua capacidade de conquistar votos fora de sua base inicial. Das três pessoas que começaram a dinâmica apoiando Flávio Bolsonaro, duas terminaram declarando preferência por Caiado. O candidato do PSD também conquistou a única eleitora de Romeu Zema e um dos indecisos.

Renan Santos produziu um efeito diferente. Seu estilo agressivo dividiu o grupo, mas atraiu dois dos três eleitores inicialmente indecisos e despertou o interesse de um apoiador de Flávio. A receptividade foi maior entre os homens, que valorizaram sua linguagem direta e suas propostas para a segurança pública.

Entre as mulheres, o mesmo comportamento provocou forte rejeição. Participantes criticaram a agressividade, o vocabulário e o temperamento do candidato.

Se Caiado teve melhor desempenho diante dos eleitores observados pelo Travessia, Renan foi quem mais conseguiu transformar o debate em atenção digital.

Referências on-line

Segundo levantamento da Bites, entre a noite de domingo e as 10 horas desta segunda-feira, 24, os posts publicados nos perfis oficiais de Renan somaram 1,9 milhão de interações. Augusto Cury apareceu muito atrás, com 323 mil, mas ainda acima das 262 mil interações registradas por Lula em seus perfis. Caiado teve 94 mil.

No conjunto de mídia e redes sociais, Renan também liderou o volume de referências, com 78.208 publicações nas 24 horas analisadas. O alcance veio acompanhado de forte rejeição: 50,9% das menções foram classificadas como negativas e 15,5% como positivas.

É uma fotografia coerente com a observação do Travessia. Renan conseguiu chamar atenção e mobilizar uma parcela dos eleitores, mas seu estilo também produz resistência elevada. Caiado teve menos repercussão digital, porém maior capacidade de persuasão no grupo acompanhado pelo Estadão.

Augusto Cury ocupou uma posição intermediária. Na medição da Bites, apresentou a maior proporção de referências positivas entre os candidatos analisados, 17,7%, diante de 42,7% negativas. Nas buscas do Google, também dividiu a atenção com Renan e Caiado, com diferenças importantes entre os Estados.

Lula não escapou do debate

O cenário que produziu esses resultados foi incomum. Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não compareceram à Band. Restaram apenas Caiado, Renan e Cury no palco. Lula e Flávio, os dois líderes das pesquisas, tornaram-se imediatamente os principais alvos.

A ausência de Lula fazia parte de uma estratégia mais ampla. Enquanto seus adversários debatiam na Band, a Record transmitiu uma entrevista com o presidente. Lula pôde responder, em ambiente mais controlado, às investigações envolvendo Lulinha. Disse que não interferiria nas apurações e que caberia ao filho provar sua inocência.

A estratégia, porém, não conseguiu retirar o assunto do centro da conversa digital.

Segundo a Bites, houve 61.605 menções relacionadas ao debate nas 24 horas analisadas em que Lula apareceu, das quais 48,1% tinham teor negativo e 10,8%, positivo. No universo específico de referências ao caso Lulinha, foram 62.007 citações, com 58,3% negativas e apenas 6,7% positivas.

A entrevista paralela tampouco conseguiu superar o debate em atenção. O universo de menções associando Lula à Record ficou em 30.235 citações, menos da metade das referências ao caso Lulinha. Dessas menções, 50,9% foram negativas e 15% positivas.

Sem controle da agenda

Os números relativizam uma das impressões deixadas pela pesquisa qualitativa do Estadão. Os três eleitores de Lula acompanhados pelo Travessia permaneceram com o presidente e não consideraram sua ausência um problema. Isso indica resistência de sua base, mas não significa que Lula tenha conseguido controlar a agenda da noite. Nas redes, continuou submetido aos ataques dos adversários e à repercussão do caso envolvendo seu filho.

Flávio Bolsonaro também não parece ter se beneficiado da cadeira vazia. Na pesquisa do Travessia, perdeu dois de seus três eleitores para Caiado e viu o terceiro terminar dividido entre ele e Renan. Na medição da Bites, recebeu 17.869 citações, das quais 61,7% foram negativas.

Durante o debate, Flávio divulgou um vídeo afirmando que respeitava os candidatos presentes, mas que seu verdadeiro adversário era Lula e que preferia enfrentá-lo diretamente. A justificativa não impediu que sua ausência abrisse espaço para concorrentes que disputam justamente o eleitorado de oposição.

Zema também desistiu de participar, alegando que a mudança anterior da data do debate havia sido feita para facilitar a presença de Lula e perdera o sentido diante das ausências dos principais candidatos. Com isso, porém, deixou o palco inteiramente aberto aos três adversários que aparecem próximos dele nas pesquisas.

Púlpitos vazios

Entre os presentes, Renan foi quem mais explorou as cadeiras vazias. Atacou Lula e Flávio repetidamente e defendeu medidas duras contra o crime organizado, como superpresídios, operações de Garantia da Lei e da Ordem e intervenções federais em Estados que considera dominados por facções.

Caiado preferiu enfatizar sua experiência administrativa, segurança pública e propostas para educação e inteligência artificial. Na economia, relacionou a possibilidade de redução dos juros ao controle da inflação.

Cury falou principalmente sobre educação, saúde mental e corrupção e protagonizou um dos poucos confrontos entre os candidatos presentes ao censurar a agressividade de Renan. Segundo o Valor, chegou a liderar as buscas relacionadas ao debate no Google ao final do primeiro bloco.

No geral, entretanto, houve pouca divergência substantiva entre os três. O debate foi marcado muito mais pelos ataques aos ausentes do que pelo confronto entre os presentes.

A hierarquia da eleição continua amplamente favorável a Lula e Flávio. No Datafolha divulgado antes do debate e citado pelo Valor, Lula tinha 39%, Flávio 33%, Caiado 5%, Renan 4%, Zema 3% e Cury 2%.

O primeiro debate mostrou que as cadeiras vazias não são necessariamente neutras. Lula preservou seus eleitores no pequeno grupo observado pelo Estadão, mas não conseguiu escapar da agenda negativa nas redes. Flávio, além da repercussão digital desfavorável, viu eleitores experimentarem alternativas.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER