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ECONOMIA

Casas Bahia são símbolo do desafio econômico que espera o próximo governo

Crise da rede decorre de transformações no varejo, mas também expõe efeito dos juros e do crédito restrito

Há 62 dias • por Carlos Graieb
Casas Bahia são símbolo do desafio econômico que espera o próximo governo
Loja das Casas Bahia. Foto: Carina Caracol/Wikimedia Commons
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5:49

No Brasil de Ideias – Especial Eleições, realizado pelo Grupo VOTO nesta segunda-feira, 17, em São Paulo, o candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) recorreu ao o pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia para ilustrar suas críticas à política econômica do governo Lula.

Para Caiado, o episódio é sintoma de um ambiente em que juros elevados atingem o consumidor, restringem o crédito e encarecem o capital de giro das empresas. Na apresentação de seu programa econômico, prometeu um ajuste fiscal rigoroso, com forte limitação ao crescimento dos gastos federais. Privatizações e o corte dos chamados “penduricalhos” do funcionalismo também fazem parte do receituário, embora o próprio candidato tenha reconhecido que medidas desse tipo, isoladamente, têm alcance limitado diante do tamanho do déficit.

A situação do varejo

A referência às Casas Bahia encontrou terreno fértil. Com 17,3 bilhões em créditos sujeitos a reestruturação, a companhia se juntou a um grupo de grandes nomes do varejo que adotaram recentemente medidas semelhantes. Casa & Vídeo, Tok&Stok e Marabraz também entraram em recuperação judicial.

A sucessão de problemas poderia sugerir uma crise generalizada do comércio. Os números do IBGE, porém, contam uma história mais complexa. Divulgada na quinta-feira, 13, a Pesquisa Mensal de Comércio mostrou que o varejo restrito (que exclui veículos e materiais de construção) cresceu 0,5% em junho na comparação com maio, 2,9% sobre junho de 2025 e 1,9% no primeiro semestre.

Supermercados e outros segmentos associados ao consumo cotidiano continuam crescendo, sustentados pelo emprego, pela renda e pela desaceleração da inflação. No entanto, as compras que dependem mais intensamente de financiamento mostram outra realidade. Material de construção caiu 3,5% em junho, veículos e autopeças recuaram 1,5% e tecidos, vestuário e calçados, 2,6%. Os móveis e eletrodomésticos vendidos pelas Casas Bahia também se enquadram nessa categoria.

Com a Selic em 14% ao ano, os juros produzem um efeito particularmente forte sobre o varejo de bens duráveis. Encarecem simultaneamente o financiamento das próprias empresas, o capital necessário para manter estoques e operações e o crédito oferecido ao consumidor. O endividamento das famílias amplia essa pressão e ajuda a explicar por que uma economia com baixo desemprego pode conviver com dificuldades severas em determinados segmentos.

Desafios de gestão

Mas nem toda crise se explica pelas condições macroeconômicas. Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok e outras redes também enfrentam uma transformação que ocorre no varejo mundial. O consumidor compara preços em segundos, migra entre lojas e marketplaces, compra de plataformas internacionais e espera que canais físicos e digitais funcionem de forma integrada. Redes construídas em torno de grandes estruturas de lojas físicas passaram a competir com modelos mais leves e flexíveis.

O Global Retail Industry Outlook 2026, publicado no início do ano pela Deloitte, mostra que o desafio é mundial, mas também que boa parte do setor enxerga oportunidades nessa mudança. Entre 330 executivos pesquisados pela consultoria, 96% esperavam crescimento das receitas em 2026. A resposta ao novo ambiente passa por inteligência artificial, integração entre canais, transformação das cadeias de suprimento e, principalmente, maior disciplina de custos e margens.

É aí que o caso das Casas Bahia traz sua segunda lição. O grupo cresceu durante décadas apoiado em ampla capilaridade física e numa relação estreita entre varejo e financiamento ao consumidor. Esse modelo ficou muito mais difícil de sustentar quando o dinheiro deixou de ser barato. A companhia demorou a acompanhar algumas das mudanças digitais do mercado. Nos últimos anos, fechou centenas de unidades e procurou sucessivamente reorganizar suas dívidas e sua operação.

Agenda eleitoral

O problema, portanto, está na combinação entre um ambiente macroeconômico difícil e vulnerabilidades empresariais específicas. A recuperação judicial pode reorganizar o passivo, mas não substitui uma transformação do negócio, para que a empresa volte a ser competitiva.

Com a largada oficial das campanhas presidenciais ocorrida no domingo, 16, o episódio das Casas Bahia levanta, de fato, questões importantes. O próximo governo encontrará empresas convivendo com crédito caro, elevada dívida pública, consumidores endividados e uma transformação tecnológica acelerada. Os candidatos devem ser cobrados por propostas sobre controle das despesas públicas, estabilização da dívida, inflação convergindo para a meta e preservação da credibilidade da política monetária – condições capazes de levar a uma redução sustentável dos juros. Há também uma agenda de governo menos visível, mas igualmente importante, de produtividade, simplificação regulatória, segurança jurídica, digitalização e aumento da competição.

A recuperação judicial das Casas Bahia aponta para dois desafios diferentes. Um pertence à política econômica e diz respeito ao custo do capital no Brasil. O outro está dentro das empresas e envolve gestão, incorporação de tecnologia e capacidade de inovação. A campanha presidencial terá de discutir o primeiro. O mercado continuará cobrando das empresas respostas para o segundo.

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