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ECONOMIA

Nova escalada entre EUA e Irã amplia risco para o agro brasileiro

Fim da trégua prolonga crise no mercado de fertilizantes e reforça necessidade de estratégia para tratar de vulnerabilidade conhecida

Há 104 dias • por Da Redação
Nova escalada entre EUA e Irã amplia risco para o agro brasileiro
O secretário-geral da OTAN Mark Rutte e o presidente americano Donald Trump em Ankara. Foto: Otan
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A frágil trégua entre Estados Unidos e Irã desabou. Nesta quarta-feira, 8, o presidente americano Donald Trump declarou que o memorando de entendimento firmado entre os dois países “acabou”, anunciou novos ataques contra alvos iranianos e afirmou que não pretende manter negociações com Teerã. Em resposta, a Guarda Revolucionária iraniana informou ter atingido instalações militares americanas no Bahrein e no Kuwait.

A retomada das hostilidades provocou uma disparada dos preços do petróleo e recolocou em dúvida a reabertura plena do Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo. Para o Brasil, a consequência mais imediata pode surgir longe dos mercados de energia: o prolongamento da crise no mercado de fertilizantes, insumo essencial para a próxima safra agrícola.

Fertilizantes, o x da questão

A escalada ocorre apenas três semanas depois da tentativa de interromper o conflito por meio de um memorando de entendimento. Mesmo antes dos acontecimentos desta quarta, já se sabia que a normalização das cadeias de suprimento seria lenta, em razão da necessidade de recompor infraestrutura e estoques, reorganizar o tráfego marítimo e restabelecer contratos de fornecimento. Com a retomada dos ataques, esse processo torna-se ainda mais incerto. Além do impacto direto sobre os preços do petróleo, aumenta a pressão sobre fretes marítimos, seguros de carga e matérias-primas utilizadas na fabricação de fertilizantes.

Diante das dificuldades para garantir o abastecimento de fertilizantes fosfatados, o governo brasileiro já havia criado um comitê de crise, mobilizando a diplomacia para negociar fornecimento emergencial com Rússia, China e Marrocos. A intenção é assegurar volumes suficientes para a safra 2026/27 e, se possível, estabelecer mecanismos de cooperação capazes de garantir abastecimento em situações excepcionais.

Problema estrutural

A vulnerabilidade brasileira decorre de um problema estrutural. Em 2025, o país importou aproximadamente 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes, equivalentes a 92% do consumo nacional. Embora o potássio continue disponível em volumes relativamente confortáveis, os fertilizantes fosfatados tornaram-se o principal ponto de atenção. O Brasil importa praticamente todo o enxofre utilizado na produção doméstica, e dificuldades no acesso às matérias-primas já levaram à redução da atividade em algumas unidades industriais.

O calendário agrícola aumenta as dificuldades. Segundo análise do Rabobank divulgada pela CNN, cerca de dois terços das compras de fertilizantes para a soja já haviam sido concluídos até meados de junho. Mas o último terço da demanda — tradicionalmente contratado mais próximo do plantio — deve encontrar preços elevados e dificuldades de abastecimento na fase decisiva de aquisição dos insumos.

Necessidade estratégica

O país não enfrenta risco de desabastecimento iminente. Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) mostram que o consumo acumulado de fertilizantes permanece acima do registrado no ano passado e as importações seguem em ritmo elevado. O mercado continua funcionando, mas com menor margem de segurança.

A principal mudança produzida pela nova escalada entre EUA e Irã, portanto, é o agravamento de uma vulnerabilidade conhecida. Mesmo que as negociações fossem retomadas imediatamente, a normalização das cadeias globais de suprimento exigiria tempo. A continuidade dos confrontos prolonga esse período de incerteza e reforça a necessidade de o Brasil diversificar fornecedores, ampliar estoques estratégicos e reduzir, no médio prazo, sua dependência de fertilizantes importados.

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