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ECONOMIA

Nos EUA, Flávio Bolsonaro tentará deter tarifaço e ganhar votos

O desafio do pré-candidato do PL é escapar à pecha de "entreguista" e "submisso aos EUA" que o PT procura lhe atribuir

Há 105 dias • por Da Redação
Nos EUA, Flávio Bolsonaro tentará deter tarifaço e ganhar votos
Flávio Bolsonaro e Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. Foto: Reprodução/Instagram Flávio Bolsonaro
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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) terá nesta terça-feira (7), em Washington, a oportunidade de transformar em discurso a estratégia política apresentada na manifestação de 86 páginas que enviou ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). A principal dúvida é se repetirá integralmente a linha de argumentação da carta ou se adaptará sua fala diante das autoridades americanas e dos representantes do setor privado presentes à audiência pública sobre a proposta de sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros.

O documento combina três mensagens centrais: sustenta que o tarifaço fortaleceria eleitoralmente o presidente Lula ; afirma que um eventual governo liderado por ele teria maior afinidade com as posições defendidas por Washington; e sugere caminhos para uma negociação, incluindo concessões em alguns dos temas investigados, como um compromisso político de não internacionalizar o Pix em sistemas alternativos ao dólar.

O desafio do pré-candidato é escapar à pecha de “entreguista” e “submisso aos EUA” que o PT procura lhe atribuir.

Carta

A audiência integra a consulta pública aberta pelo USTR no âmbito da investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O processo examina seis áreas consideradas sensíveis pelos Estados Unidos: comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico (leia-se, o Pix), tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. Flávio dividirá espaço com representantes da indústria brasileira, do setor calçadista e de empresas americanas, em um encontro que reunirá participantes favoráveis e contrários à adoção das tarifas.

A manifestação enviada ao USTR adota uma estratégia incomum. Em vez de contestar o diagnóstico americano sobre esses temas, ela reconhece boa parte das preocupações levantadas pela investigação e concentra seus esforços em questionar a eficácia da resposta escolhida. Segundo o senador, a experiência recente demonstraria que tarifas comerciais não alteram decisões do Supremo Tribunal Federal nem políticas do governo brasileiro. Ao contrário, argumenta, acabam fortalecendo o discurso nacionalista do Palácio do Planalto e favorecendo eleitoralmente Lula. A partir dessa premissa, pede que o governo Donald Trump substitua a sobretaxa por uma negociação estruturada entre os dois países.

Afinidades

Outro eixo importante da carta é a tentativa de apresentar um eventual governo da oposição como interlocutor mais próximo dos interesses americanos. Em diversos trechos, Flávio afirma que haveria maior convergência entre Washington e um “governo reformista” do que com a atual administração brasileira.

Essa aproximação aparece acompanhada de propostas concretas. No capítulo dedicado ao Pix, por exemplo, o senador afirma que o sistema de pagamentos não prejudica empresas americanas, mas oferece um compromisso político de que ele não seja integrado a mecanismos internacionais alternativos ao dólar, numa referência implícita às iniciativas discutidas pelos Brics. Em outras áreas, defende negociações sobre propriedade intelectual, etanol, corrupção e comércio digital, sempre substituindo a lógica de sanções por um cronograma bilateral de reformas e acompanhamento.

Negociações

Um aspecto que poderá influenciar a recepção desse discurso é o estágio atual das negociações oficiais entre Brasília e Washington. A carta afirma que o governo brasileiro teria deixado de negociar com os Estados Unidos ao longo da investigação, mas esse diagnóstico já não corresponde ao momento atual. Nas últimas semanas, os dois governos realizaram sucessivas reuniões técnicas e de alto nível.

Na quinta-feira (2), representantes brasileiros voltaram a se reunir com o representante comercial americano, Jamieson Greer, ocasião em que apresentaram um “mapa do caminho” com alternativas para evitar a aplicação da sobretaxa. Os dois lados reconheceram oficialmente que o diálogo permanece em andamento e programaram uma nova rodada de negociações antes do prazo previsto para eventual entrada em vigor das tarifas, em 15 de julho.

A audiência desta terça, portanto, ocorre paralelamente às tratativas diplomáticas conduzidas pelos dois governos. Sob esse aspecto, a fala de Flávio Bolsonaro servirá também para indicar se sua estratégia continuará centrada na tese de que as tarifas favorecem politicamente Lula ou se dará maior ênfase às propostas de negociação e às concessões apresentadas na carta. A resposta poderá ajudar a definir como o senador pretende se posicionar simultaneamente como pré-candidato à Presidência da República e como interlocutor de setores da administração americana interessados nos desdobramentos da investigação comercial.

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