Buscar
MUNDO

Trump entra em campo e causa crise institucional na Fifa

Pedido do governo americano para que sanção a atacante dos EUA fosse suspensa causa forte reação no meio futebolístico

Há 105 dias • por Carlos Graieb
Trump entra em campo e causa crise institucional na Fifa
Donald Trump recebe de Gianni Infantino o Prêmio da Paz da FIFA. Foto: Daniel Torok/White House
Ouça este conteúdo Trump entra em campo e causa crise institucional na Fifa
4:36

A decisão da Fifa de suspender a punição automática ao atacante americano Folarin Balogun, permitindo que ele enfrente a Bélgica nas oitavas de final da Copa do Mundo, transformou um caso disciplinar em uma crise institucional. O episódio ganhou contornos delicados após o The New York Times revelar, em primeira mão, que o presidente Donald Trump e integrantes de seu governo procuraram o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para obter a revisão da sanção.

Segundo a reportagem do New York Times, Trump telefonou a Infantino poucas horas depois da expulsão de Balogun. Em seguida, autoridades da Casa Branca, entre elas o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e Andrew Giuliani, diretor da força-tarefa da Casa Branca para a Copa, entraram em campo. Eles passaram a auxiliar a Federação de Futebol dos Estados Unidos na construção de uma estratégia jurídica para tentar reverter a punição. Sanções desse tipo são automáticas e normalmente não admitem recurso.

Câmera lenta

O principal argumento apresentado pelas autoridades americanas, também revelado pelo New York Times, foi que a expulsão teria sido tecnicamente equivocada porque os árbitros utilizaram imagens em câmera lenta para avaliar o lance. Na avaliação levada à Fifa, esse recurso teria distorcido a percepção da intensidade da entrada de Balogun sobre o defensor bósnio Tarik Muharemovic. O jornal acrescenta que Trump também mencionou, durante a conversa com Infantino, acusações públicas — jamais comprovadas por autoridades brasileiras ou pela própria Fifa — envolvendo o árbitro Raphael Claus, que aplicou o cartão vermelho após revisão do VAR.

No domingo, a Fifa anunciou que manteria o cartão vermelho. Mas suspendeu a execução da punição por um período probatório de um ano, com base no artigo 27 de seu Código Disciplinar. Na prática, Balogun permaneceu apto para enfrentar a Bélgica, e a suspensão somente será aplicada caso ele cometa infração semelhante durante esse período. A entidade não explicou por que utilizou esse mecanismo excepcional num caso em que a regra geral prevê suspensão automática.

Trump comemorou imediatamente a decisão. Em publicação na Truth Social, escreveu: “Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça.” A Casa Branca também celebrou a medida nas redes sociais, enquanto a Federação de Futebol dos Estados Unidos manifestou satisfação com o resultado.

Repercussão

A reação internacional, porém, foi predominantemente negativa. A Federação Belga afirmou estar “estarrecida” com uma decisão que, em sua avaliação, contradiz frontalmente os regulamentos da própria Fifa. Informou que estuda medidas para proteger os direitos das seleções participantes.

A crítica mais contundente veio da Uefa. Em nota oficial, a entidade afirmou que a Fifa “cruzou uma linha vermelha” ao flexibilizar uma suspensão automática após intervenção política. Para a organização europeia, quando a aplicação uniforme das regras deixa de ser garantida pelos próprios responsáveis por administrá-las, ficam comprometidas tanto a integridade esportiva quanto a credibilidade da competição.

Também houve manifestações de figuras importantes do futebol europeu. O ex-jogador inglês Wayne Rooney classificou a decisão como “uma vergonha absoluta”. O também inglês Gary Neville afirmou que o episódio “cheira muito mal”. Já o comissário europeu para Esporte, Glenn Micallef, sustentou que decisões esportivas devem permanecer exclusivamente nas mãos das entidades esportivas. Segundo ele, a influência de governos compromete a autonomia do esporte.

O caso ainda reavivou o debate sobre a relação entre Gianni Infantino e Donald Trump. O presidente da Fifa vem cultivando uma relação próxima com o mandatário americano há anos. Em dezembro de 2025, concedeu a Trump um recém-criado “Prêmio da Paz da Fifa”. A reversão da suspensão de Balogun tende a ampliar os questionamentos sobre os limites entre diplomacia política e autonomia das instituições esportivas.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER