O governo federal anunciou nesta terça-feira (30) a destinação de R$ 525,1 bilhões para o Plano Safra 2026/2027. Embora o montante represente uma expansão nominal em relação ao ciclo anterior, a opção por reduzir as taxas de juros impede, ao mesmo tempo, que cresça o número de produtores beneficiados.
É o que avaliou o especialista Rogério Boueri, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Fazenda. Em entrevista à V, Boueri afirma que o desenho do programa reflete uma escolha política imposta pelas restrições fiscais enfrentadas pelo governo Lula. Ele explica que o espaço orçamentário curto impede uma expansão robusta dos recursos somada a uma redução das taxas de financiamento.
“Não dava para fazer muito mais do que isso. Conseguiram baixar os juros, mas isso dificulta o aumento do volume de recursos, porque o cobertor é curto”, afirma.
Finalidades do crédito
O novo Plano Safra destina R$ 525,1 bilhões ao financiamento da produção agropecuária empresarial. Desse montante, R$ 384,9 bilhões serão direcionados às operações de custeio e comercialização. Contemplarão despesas como aquisição de insumos, manutenção das atividades no campo e apoio à venda da produção.
Os R$ 140,2 bilhões restantes financiarão investimentos voltados à expansão e modernização das propriedades. Isso inclui obras de armazenagem e irrigação, compra de máquinas e equipamentos, incorporação de novas tecnologias e melhorias na produtividade.
Redução em termos reais
Em relação ao ciclo anterior, quando foram disponibilizados R$ 516 bilhões, o volume de recursos cresceu R$ 9 bilhões, o equivalente a uma alta nominal de 1,7%. Considerando também os aproximadamente R$ 85 bilhões previstos para o Plano Safra da agricultura familiar, o crédito público destinado ao setor agropecuário ultrapassa R$ 610 bilhões na safra 2026/2027.
O aumento, contudo, não representa crescimento real no montante disponibilizado na comparação com o ano passado. Boueri observa ainda que, apesar do crescimento nominal de cerca de 2%, o Plano perde força quando considerado o impacto da inflação, que no acumulado de 12 meses representa 4,72%, segundo o IBGE.
“Na verdade, até diminuiu um pouco em termos reais”, conclui.
Menos beneficiários
Boueri destaca que a estratégia produz efeitos distintos sobre os produtores rurais. Aqueles que conseguirem acessar as linhas de financiamento serão beneficiados por condições mais favoráveis. Em contrapartida, a limitação dos recursos disponíveis tende a reduzir o alcance do programa.
“Por um lado, quem conseguir acesso ao recurso vai ter uma taxa mais baixa. Mas, pelo outro lado, vai diminuir o número de pessoas que terão acesso ao crédito”, afirma.
Sustentabilidade
Para além do pacote de crédito, entre as novidades do ciclo 2026/2027 está a ampliação dos incentivos voltados à sustentabilidade no campo. Produtores que mantiverem o Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado e adotarem práticas de produção sustentáveis, além de padrões de gestão e certificações reconhecidas, poderão obter redução nas taxas de juros.
O benefício pode alcançar até um ponto percentual, sendo metade vinculada à regularidade ambiental da propriedade e a outra metade à adoção de boas práticas.
Seguro rural
O Plano Safra também fortalece os mecanismos de gestão de riscos da atividade rural. Pelas novas regras, a renegociação de operações de custeio agrícola passa a estar condicionada à contratação prévia de instrumentos de proteção, como o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) ou o seguro rural.
A medida busca ampliar a segurança financeira dos produtores diante de perdas na produção e reduzir a exposição do sistema de crédito rural aos riscos climáticos e de mercado.




