Em um cenário internacional marcado por transformações econômicas e geopolíticas profundas, notadamente a transição energética, os minerais críticos assumem papel relevante. Mais do que insumos industriais, tornaram-se ativos estratégicos, capazes de redefinir relações comerciais, industriais e geopolíticas.
Para países com vocação mineral, como o Brasil, este é um momento singular, uma janela de oportunidade que dificilmente se repetirá com a mesma intensidade. Neste contexto, é essencial que o nosso país se valha do momento para tirar e o melhor proveito das suas reservas minerais, de modo a promover o desenvolvimento socioeconômico a nível nacional.
Crescimento da demanda
A demanda por minerais como lítio, grafite, manganês, terras raras, cobre e outros insumos essenciais para baterias, turbinas, energias renováveis, inteligência artificial e tecnologias de baixo carbono cresce em ritmo acelerado. Esse movimento não apenas reflete uma mudança e evolução tecnológica, mas uma reconfiguração estrutural da economia global. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), será necessário um aumento da oferta de 400% a 600% desses insumos para suprir a demanda mundial até 2040.
Países detentores de reservas relevantes passam, portanto, a ocupar posição de protagonismo, desde que consigam transformar potencial geológico em desenvolvimento. Este é o contexto em que estamos inseridos, na medida em que temos de avançar no conhecimento do subsolo brasileiro e viabilizar o aproveitamento racional das nossas jazidas, com a agregação de valor à cadeia produtiva.
As vantagens do Brasil
O Brasil reúne condições particularmente favoráveis. Segundo a AIE, o país detém cerca de 25% das reservas conhecidas de minerais críticos voltados à transição energética. Soma-se a isso a presença expressiva de terras raras (segunda maior reserva do mundo), reservas significativas de urânio — sexta maior do mundo, de acordo com a AIEA — e um grande potencial para a produção de lítio e grafite. Trata-se de um patrimônio geológico que, se bem aproveitado, pode impulsionar a reindustrialização, a inovação tecnológica e a inserção qualificada do país nas cadeias globais de valor.
A mineração já desempenha papel relevante na economia nacional. De acordo com dados do IBRAM, o setor mineral registrou faturamento de R$ 77,9 bilhões no primeiro trimestre de 2026 e representou 66% do superávit comercial brasileiro no período, contribuindo para a geração de divisas, empregos e desenvolvimento regional. No entanto, o desafio que se coloca não é apenas ampliar a produção, mas qualificá-la: agregar valor, incorporar tecnologia e assegurar padrões elevados de sustentabilidade e governança.
Nesse aspecto, o Brasil parte de uma base institucional sólida. Órgãos como o Ministério de Minas e Energia, o Conselho Nacional de Política Mineral, a Agência Nacional de Mineração, o Serviço Geológico do Brasil e o Centro de Tecnologia Mineral formam um arcabouço institucional, técnico e regulatório capaz de sustentar uma política pública consistente para o setor. A isso se somam entidades representativas como o IBRAM, a AMC e a ABPM, que contribuem para o diálogo entre o setor produtivo e o poder público.
Coordenação e governança
O momento exige coordenação e governança. Cabe ao Poder Executivo e ao Congresso Nacional assegurarem as condições necessárias, sejam elas financeiras, tecnológicas ou de recursos humanos, para que essas instituições possam exercer plenamente suas funções, seja na formulação de políticas, seja na regulação ou fiscalização das atividades.
Investir em capacidade institucional é, nesse contexto, investir em segurança jurídica, previsibilidade e competitividade. O Brasil tem diante de si uma oportunidade concreta de transformar seu potencial mineral em vetor de desenvolvimento sustentável. O protagonismo, contudo, está no resultado. E o resultado que se espera, e que deve orientar as decisões públicas e privadas, é o desenvolvimento do país, com geração de riqueza, inclusão social e inserção estratégica no novo cenário econômico global.
Brasil precisa de coordenação e governança para se beneficiar da vantagem estratégica oferecida pelas terras raras
*O almirante Bento Albuquerque é ex-ministro de Minas e Energia e consultor estratégico.




